29 de outubro de 2010

A campanha eleitoral que ora chega ao seu fim – ocorrida num momento de relativa estabilidade econômica e social do Brasil – produziu acontecimentos que geraram grande instabilidade política no País. Desde os seus primórdios – quando o candidato da oposição José Serra ainda hesitava em se lançar à disputa – até esses últimos dias, quando uma campanha difamatória contra a candidata oficial invade as nossas casas com gravações injuriosas, assistimos à participação de todos os segmentos sociais da Nação, com evidentes interferências do Poder Judiciário em decisões pouco claras e contraditórias, dos meios de comunicação maciçamente favoráveis ao candidato da oposição, das várias denominações religiosas e do Poder Executivo.

Perigoso foi o clima que imprimiu ao processo a coligação PSDB-DEM-PPS, com acusações que extrapolaram a natureza política dos debates e criaram uma atmosfera de confrontação pessoal que felizmente não levou a batalhas campais entre militantes. No entanto, quando se observam os instrumentos de propaganda de que se serviu o candidato Serra, a natureza das acusações que lançou contra Dilma Rousseff, as catástrofes que profetizou para a hipótese da vitória da candidata do governo, percebe-se que a estratégia da oposição jamais consistiu em discutir programas de governo – mesmo porque na verdade nunca os teve – mas sobretudo em alimentar o medo e a insegurança da classe média, o obscurantismo religioso das classes mais baixas e os resquícios de preconceito machista da nossa cultura.

O fato de que Dilma Rousseff manteve sempre uma margem razoável de vantagem nas pesquisas mais confiáveis mostra que a população brasileira não se deixou convencer por argumentos comprovadamente sórdidos e mentirosos e sugere um processo de amadurecimento de nossa consciência política nessa 6ª eleição presidencial consecutiva que ocorre desde o fim da ditadura militar (1964-1985). Indica também que – a despeito da natureza essencialmente sensacionalista das denúncias e da falsa questão do aborto – questões fundamentais como geração de emprego, crescimento econômico, distribuição de renda e a política de controle das riquezas nacionais pelo Estado foram determinantes para o processo de escolha do melhor candidato.

De outra parte, o fortalecimento de alguns partidos da base aliada mostra que essa tendência ocorreu igualmente nas eleições proporcionais e nos estados, onde o atual governo deve obter uma ampla maioria de dois terços. Quanto à coligação de oposição, considera-se que o tipo de campanha que foi desencadeada por José Serra terminou por isolá-lo numa constrangedora posição de extrema direita. O sociólogo Hélio Jaguaribe, por exemplo, um dos fundadores do PSDB acredita que o PT se apossou da bandeira social-democrata que em outros tempos havia sido levantada pelo seu partido e entre seus membros afirma-se que a postura eleitoral de José Serra provavelmente desconsiderou o seu próprio passado ao se aliar à TFP e à Opus Dei e permitir os acintes de seu companheiro de chapa Índio da Costa.

Provavelmente chegaremos a 2011 com um governo social-democrata no estilo espanhol. Ao PSDB e seus aliados, só restará o caminho da oposição: não se sabe ainda se pela chamada via democrática das instituições ou recorrendo à delinquência política, com apelos a golpes, insurreições e ao terrorismo.

                                                                                                    Sérvulo Siqueira