28 de setembro de 2015

As imagens na nossa história

                                                                                                                       

 

As imagens desempenham um papel fundamental na nossa história. Faraós egípcios buscavam preservar na vida e na morte a sua própria imagem. Reis e rainhas se faziam retratar por pintores e escultores e isto tornou possível que artistas de grande talento pudessem sobreviver por meio deste ofício. Durante o Barroco, a Igreja Católica ─ confrontada pela Reforma Protestante ─ preencheu os templos com as mais suntuosas imagens.

Nos dias atuais da “sociedade do espetáculo”, os políticos também se transformaram em estrelas no grande circo do show-business. A 70ª Assembleia Geral das Nações Unidas ofereceu algumas imagens, registradas pelos fotógrafos da imprensa mundial, que são bem indicativas do momento que vivemos.

Duas delas, capturadas nos encontros do dirigente norte-americano Barack Obama com os presidentes da Rússia e China, Vladimir Putin e Xi Jinping, parecem dar uma ideia do modo como dois importantes líderes mundiais veem a conduta ianque de não assinar acordos ─ e de quando assinados, não cumpri-los ─ sua postura beligerante de bombardear países que não se submetem aos ditames da “política da canhoneira”, a prática desenfreada de derrubar governos democraticamente eleitos ─ como ocorreu recentemente na Ucrânia ─ e a notória arrogância fundada no mito de seu próprio excepcionalismo como povo e nação.

Coincidentemente, nos dois encontros de Barack O’Bomber com Putin e Xi, ambos os presidentes de nações que hoje sofrem as consequências da belicosa política de Tio Sam parecem avaliar com cuidado o significado de apertar as mãos do dirigente de um país que não tem o hábito de honrar seus compromissos apesar de pretender ─ por meio do gesto simbólico do aperto de mãos ─ dar a eles um caráter de seriedade.

Vai ficando cada vez mais claro na política internacional, uma atividade que os Estados Unidos querem hoje de forma deliberada distorcer para que esta sirva aos seus propósitos e a de seus aliados, que simples palavras proferidas a esmo ou sob o aparato de uma vasta campanha publicitária ─ especialidade em que os gringos são mestres ─ não são mais capazes de gerar confiabilidade.

Por outro lado, Putin e Xi poderiam perguntar a si mesmos:

─ Esta mão que vou apertar em seguida é a mesma mão que assina diariamente a eliminação de mais de 50 pessoas por meio da ação de aviões não tripulados? É esta mesma mão que determina o bombardeio de populações civis no Afeganistão, na Síria, na Líbia, no Sudão, no Iêmen?

Que considerações teriam feito intimamente os presidentes russo e chinês segundos antes de selar um encontro histórico com o líder da (ainda) maior potência do planeta? Será que para eles este gesto tem o mesmo valor que possui para o presidente afro-americano dos States?

Outros poderiam argumentar que, oriundos de culturas diferentes, o aperto de mão pode ter outro significado para Putin e Xi: menos formal e mais significativo do que no Ocidente. A alguém talvez ocorresse que para Obama o gesto também não tem o mesmo sentido porque, ao utilizar a mão direita, O’Bomber tampouco oferecia a sua mão ativa e operacional ─a sua mão “verdadeira” ─ uma vez que o presidente norte-americano não é destro, mas sim canhoto. Assim os contratos que não cumpre, as listas de inimigos que seus drones eliminam diariamente ─ as kill lists como são chamadas pela imprensa americana ─ ele os assina com a mão esquerda.

Outro instantâneo com um peculiar significado simbólico foi registrado em uma reunião de confraternização ocorrida após o encontro entre Obama e Putin em Nova York.

Nele vê-se Obama oferecendo uma taça de vinho a Putin para um brinde. O gesto é formal e mostra um semblante sisudo e até carrancudo de O’Bomber , não muito frequente nas aparições públicas do presidente americano. Por sua vez, Putin observa o seu homólogo com um leve sorriso nos lábios e apresenta uma face bem mais relaxada.

Como o encontro ocorreu após uma reunião em que assuntos potencialmente explosivos foram discutidos, pode-se perguntar que relação teria o olhar e a postura de Obama em relação ao que foi tratado momentos antes. Sabe-se agora que durante esta reunião Putin comunicou ao americano que a Rússia passará agora a intervir diretamente no Oriente Médio contra o terrorismo que os Estados Unidos dizem estar combatendo mas que ─ muitos sustentam ─ é treinado e armado pelos neocons americanos. É possível que Putin também tenha aproveitado a oportunidade para informar a Obama que a Rússia ─ como voltaria a afirmar a vários órgãos de imprensa ─ tem pleno conhecimento de todos os detalhes do golpe que derrubou Viktor Yanukóvych e da profunda participação do governo ianque na sua concepção e execução.

O olhar de Obama talvez reflita então o seu aborrecimento com o fato de que progressivamente os planos americanos de desestabilização dos governos seculares da região ─ em marcha há muitos anos e até agora com resultados catastróficos para toda a humanidade ─ começam a ser efetivamente desvendados e concretamente contestados.

A rapidez com que o secretário de Estado John Kerry propôs um encontro ao ministro das Relações Exteriores Sergei Lavrov após os primeiros ataques aos arsenais do Estado Islâmico ─ organização que muitos consideram foi constituída pelos Estados Unidos, Arábia Saudita, Qatar, Turquia, Inglaterra, França e outros aliados dos States ─ mostra que as máscaras começam a cair e o sinistro plano urdido contra a Síria corre o risco que sofrer mais um fracasso.

*As fotos foram obtidas nos sites Russia Insider e Press TV.

 

Sérvulo Siqueira