22 de junho de 2009
 


A revolução em videoclipe

 

No início do filme La chinoise de Jean-Luc Godard, Jean Pierre Léaud – no papel de militante de uma célula maoísta – explica o que é o teatro contando a seguinte história:


– Em Moscou, depois de fazerem uma manifestação diante do túmulo de Stalin, jovens militantes chineses são agredidos pela polícia soviética. No dia seguinte, na sede da embaixada chinesa e diante de toda imprensa ocidental (especialmente repórteres de Life, France Soir, etc.), aparece uma pessoa com o rosto completamente enfaixado e que fala com emoção:


Vejam, vejam o que me aconteceu, vejam o que esses revisionistas me fizeram!
 

Imediatamente, todos os repórteres se precipitam em direção ao manifestante, que apalpa com as mãos as bandagens que cobrem o seu rosto. Enquanto o jovem desenrola lentamente os curativos, os repórteres – com seus flashes insistentes – esperam registrar a imagem de uma face desfigurada e coberta por toda sorte de ferimentos. Quando, finalmente, toda a bandagem é retirada, descobrem que o rosto do jovem está intacto, em perfeito estado.
 

Os jornalistas protestam:
 

– O que é isso? Vocês estão brincando?
 

O personagem de Jean Pierre Léaud comenta então que eles não entenderam do que se tratava: “aquilo era apenas uma representação teatral”, diz.
 

Em vários momentos, os acontecimentos da semana passada em Teerã pareceram uma representação encenada para a imprensa internacional que – ávida de escândalo, violência e sensacionalismo – os transmitia por meio de satélites para um público receptor, acomodado nas suas casas no Ocidente, que se comprazia em sua imensa solidariedade para com os bravos lutadores da liberdade que expunham cartazes para as câmeras da CNN, BBC, Fox News, Reuters, CBS, The New York Times, Washington Post, etc. com o slogan: Where is my vote? Ao mesmo tempo e com incrível velocidade, jovens manifestantes transmitiam em seus celulares imagens distorcidas e truncadas, apelos, boatos e informações alarmistas a sites com tecnologia em tempo real como Twitter, YouTube e Facebook que criavam um clima de pânico e produziam um verdadeiro sentimento de comoção.
 

Essas mensagens – escritas sempre no idioma inglês – descreviam ameaças de morte, invasões policiais em casas de famílias e eram enviadas por pessoas que não poderiam ser identificadas ou localizadas. Boatos de assassinatos em massa também se espalhavam por todos os cantos e certamente devem ter sensibilizado milhões de lares norte-americanos que por um momento se esqueceram de que o Irã havia sido colocado pelo governo de George W. Bushinho na lista dos membros do Eixo do Mal e que Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA, já havia acenado com a possibilidade de obliterar completamente o país.
 

O episódio representa um dos mais avançados processos de elaboração de técnica de guerra psicológica, tática de desestabilização e dominação de povos e governos adversários dos Estados Unidos, exercida com maestria por agências de espionagem e contraespionagem americana – Agência Central de Inteligência (CIA), Agência Nacional de Segurança (NSA), Agência de Inteligência da Defesa (DIA) e outras menos conhecidas – além de organizações não governamentais internacionais, o Departamento de Estado, a Freedom House, o Centro para a Aplicação da Ação Não Violenta (CANVAS, antiga OTPOR), o Pentágono, o National Endowment for Democracy (NED), o Instituto Albert Einstein e o Escritório para Assuntos Iranianos, criado após a eleição de Mahmoud Ahmadinejad, em 2005, com um orçamento inicial de US$ 85 milhões aprovado pelo Congresso americano. Grande parte desses recursos é destinada ao financiamento de grupos dentro e fora do país – sindicatos, pseudojornalistas e terroristas – que trabalham para a desestabilização do regime em atentados e na disseminação de informações falsas e sensacionalistas.
 

A longa história da interferência de britânicos e norte-americanos no Irã remonta ao século passado quando os ingleses obtiveram direitos exclusivos ao petróleo iraniano por um período de 60 anos. Este fato levou à Revolução Iraniana de 1905 que reduziu os poderes do Xá, instalou um parlamento e deflagrou o processo de uma tradição democrática no país que levou à ascensão de Mohammad Mossadegh, um brilhante líder nacionalista que estatizou o petróleo mas foi abalroado do poder em 1953 por um golpe financiado pela CIA e coordenado por Kermit Roosevelt, neto de Theodore Roosevelt, presidente americano que esteve em visita ao Brasil em 1913 caçando animais.


Após a derrubada de Mossadegh, a célebre Operação Ajax colocou no poder o Xá Reza Pahlevi, filho de um agente colaboracionista de Adolf Hitler, que instalou um dos mais despóticos regimes do século 20, entregou as riquezas do país aos ingleses e americanos e reprimiu toda manifestação contrária ao regime utilizando sua polícia secreta, a famigerada Savak.


Esse regime caiu finalmente em 1979 no desdobramento de um dos maiores movimentos de massa da história contemporânea e que resultou na revolução liderada pelos aiatolás, com a consequente criação da primeira República Islâmica. Receosos de que uma invasão americana pudesse recolocar no poder o antigo Xá da Pérsia, os iranianos tomaram a embaixada dos Estados Unidos e sequestraram seus funcionários para usá-los como reféns na hipótese de uma invasão armada. Uma incursão aérea de fato aconteceu mas a esquadrilha americana que deveria proceder a uma operação de resgate foi obrigada a voar baixo para fugir dos radares e acabou derrubada pelo vento, num dos mais misteriosos episódios da história militar recente.
 

Nos dias de hoje, os esforços coordenados dos Estados Unidos e de Israel querem fazer crer – de forma paradoxal – que a revolta fabricada de 2009 contém muitos pontos de semelhança com os gigantescos acontecimentos que levaram à derrubada do governo fantoche de Reza Pahlevi e que as manifestações atuais, assim como o movimento de 1979, representam o consenso de uma ampla vontade popular.
 

Uma observação mais atenta dos acontecimentos pode, no entanto, levar a outras constatações. O jornalista investigativo Seymour Hersh da revista New Yorker relata em matéria de 29 de junho de 2008 que – depois de abandonar a ideia de um ataque nuclear ao Irã – o então presidente George W. Bushinho autorizou em 27 de maio de 2007 o uso de recursos no valor de US$ 400 milhões para operações da CIA neste país do Oriente Médio com o objetivo desestabilizar sua liderança religiosa, apoiar minorias étnicas e organizações dissidentes, além de obter informações sobre o seu programa nuclear. Segundo Hersh, em-bora tenha havido resistências entre a maioria democrata, que alegou falta de informações específicas sobre a natureza das operações, a proposta foi aprovada.
 

Segundo o jornalista, o dinheiro para as operações entra no Irã a partir do oeste do Afeganistão e é canalizado principalmente para a organização Jundallah, também conhecida como Movimento Iraniano de Resistência do Povo, uma organização sunita que possui laços com a Al-Qaeda e está ligada ao tráfico de drogas. Outro grupo que também recebe dinheiro do governo americano – segundo o jornalista – são os Mujahedeen E-Khalk (MEK), uma organização que já esteve na lista negra do Departamento de Estado do governo dos Estados Unidos como terrorista mas que recentemente voltou a receber armas e inteligência do Departamento de Defesa americano.
 

Entre aqueles que estão sendo cooptados por Washington para operações secretas no Irã também se encontra o Partido da Vida Livre do Curdistão (PJAK), segundo o princípio de que as minorias étnicas devem desempenhar um papel decisivo na desestabilização do regime dos aiatolás. Como se sabe, os curdos estão espraiados pelos territórios da Turquia, Iraque, Irã e Síria e anseiam por constituir um Estado-nação próprio.
 

De acordo com o relato do jornalista, a operação está em plena execução e mesmo que o novo presidente americano queira abortá-la seria necessário pelo menos um ano até que isto possa ocorrer. Um membro da comissão de liberação de verbas do Congresso disse que, uma vez concedidos os recursos, o processo segue normalmente:
 

– Nós controlamos o dinheiro e eles não podem fazer nada sem dinheiro. O dinheiro é o que conta, afirmou a Seymour Hersh.
 

De fato, segundo outro jornalista, o francês Thierry Meyssan, o Jundallah assumiu a responsabilidade por um ataque a uma mesquita xiita perpetrado no dia 28 de maio de 2009, que causou 28 mortes e uma centena de feridos graves, executado portanto a apenas quinze dias das eleições presidenciais que tanto furor estão causando em alguns grupos oposicionistas do Irã e na imprensa ocidental.
 

De acordo com Meyssan do Réseau Voltaire, a organização dispõe para suas atividades de uma televisão por satélite baseada nos Estados Unidos e de uma rádio FM, sediada na Suécia. O diretor da rádio informou no dia 31 de maio de 2009 em comunicado pela emissora que o Jundallah e os Mujahideen do Povo, uma outra organização iraniana no exílio, haviam assinado um acordo por meio do qual os Mujahideen forneceriam as informações necessárias aos atentados e em contrapartida o Jundallah daria apoio logístico para a circulação dos membros da associação no Irã.
 

A televisão Rang-A-Rang do Jundallah está localizada no estado de Virgínia, não muito distante do Pentágono, e dirige a sua programação à comunidade iraniana exilada nos Estados Unidos, apoiando abertamente a volta da monarquia. Thierry Meyssan conta que a emissora ficou célebre quando anunciou em 2007 a “libertação” iminente do Irã por tropas militares dos Estados Unidos.
 

Em linha com a estratégia do império romano de dividir para dominar e continuando a tradição britânica da qual são herdeiros, os Estados Unidos procuram agora explorar politicamente um conflito de posições no seio da própria República Islâmica que coloca, de um lado, o líder supremo Ali Khamenei e o atual presidente Mahmoud Ahmadinejad e, de outro, o aitolá Hussein Ali Montazeri, tido como sucessor natural do Imã Khomeini porém preterido em favor de Khamenei, e que é aliado do ex-presidente Akbar Hashemi Rafasanjani, derrotado por Ahmadinejad nas eleições de 2005, mas ainda muito poderoso no Irã onde é conhecido como o tubarão.
 

Nos jogos de guerra, que costumam ser usados com muita frequência pelo Departamento de Defesa nas simulações de operações militares, um ataque preventivo às instalações nucleares do Irã – proposto com fervor por neoconservadores americanos e grupos nazi-sionistas de Israel – levaria a uma escalada do conflito, com consequências imprevisíveis para a humanidade.
 

Considerando todas as implicações que o episódio contém: as relações Ocidente-Oriente, a emergência das doutrinas fundamentalistas em todas as religiões, a perspectiva de uma grande crise econômica, a decadência inexorável do imperialismo americano e a crescente dependência do Ocidente de recursos energéticos sob controle de novos países emergentes, além das posturas belicistas que têm sido empregadas pelas potências neocoloniais como instrumento de poder, o episódio que se desenrola neste momento no Oriente Médio carrega o espectro de muito mais tons que uma revolução colorida de opereta pode apresentar.
 

25 de novembro de 2009

 

O monumental esforço da direita brasileira não conseguiu produzir mais do que um mísero ratinho apesar de toda a sua tentativa para demonizar o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, por ocasião de sua recente visita ao Brasil.
 

No momento em que a Organização das Nações Unidas (ONU) discute o relatório Goldstone – que considera que o exército de Israel atacou de forma deliberada e com grande potencial bélico a indefesa população civil de Gaza, o maior campo de concentração a céu aberto do planeta – ficou claro que a enorme mobilização publicitária tinha por objetivo criar uma grande cortina de fumaça para encobrir os crimes do Estado judeu e fabricar apenas mais um pretexto para atacar o governo Lula, cuja popularidade continua em ascensão.
 

Corroborada pelo pouco interesse e conhecimento que a população brasileira tem de política externa, a gigantesca mobilização dos meios de comunicação – que mais uma vez se afirmam como um partido único, como dizia o ex-governador Leonel Brizola – não foi além de umas poucas manifestações restritas a não mais do que uma centena de pessoas em bairros de classe média alta.
 

Nas manchetes dos grandes jornais, trombeteadas com grande destaque apesar da pequena importância do fato, chamou atenção a participação de algumas organizações ligadas a grupos minoritários de gays, lésbicas e cultos religiosos afro-brasileiros. A intensa mobilização dos manifestantes, que tendia a camuflar o pequeno número de participantes, revelava imagens bizarras como a de umbandistas com turbantes carregando bandeiras do Estado de Israel, gays gritando slogans pela liberdade do homossexualismo e outras representações de caráter circense, num espetáculo que soava falso e fabricado.
 

O acontecimento não poderá deixar de evocar o ocorrido há pouco tempo no próprio Irã, quando o candidato da oposição – que todas as pesquisas confiáveis de opinião pública já consideravam como virtualmente derrotado – proclamou-se vencedor do pleito três horas antes do encerramento das votações e desencadeou de forma calculada uma série de manifestações contra o governo islâmico que – depois se provou – haviam sido cuidadosamente planejadas em Washington em associação com grupos terroristas no país. Essa estratégia não contou com o apoio explícito do governo Obama e parece refletir a crescente influência do lobby israelense no governo americano.
 

As táticas e os métodos empregados em sua organização apresentam vários pontos em comum com os empregados nas conhecidas revoluções coloridas, expediente de que se serviu o governo dos Estados Unidos para produzir de forma artificial um conjunto de reivindicações visando expressar de forma mais dramática as demandas da população. Nesses movimentos, questões como a liberdade de opinião e de opção sexual costumam se misturar a bandeiras como a da privatização dos bens públicos, por exemplo, – que são apresentadas como condição para a verdadeira liberdade da atividade econômica, o que interessa mais diretamente ao capitalismo americano – e criam um complexo variado de temas que parecem ter uma característica libertária mas cujo verdadeiro sentido só se torna claro depois da vitória do movimento.
 

Esse conceito começou a ser elaborado a partir dos anos 90 mas pode-se dizer que suas raízes já estão plantadas nas décadas de 70 e 80 do século passado, no momento em que ocorreu uma diminuição dos golpes de Estado fomentados pela CIA. Sua corporificação se deu com a criação do NED, em 1982, e do United States Institute for Peace (USIP), em 1984, duas associações sem fins lucrativos financiadas pelo Congresso e o governo dos Estados Unidos por intermédio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). A principal atividade do NED é corromper os sindicatos, os patrões, a esquerda e a direita de um país com o objetivo de obter apoio para a política americana.
 

Segundo observadores, a primeira tentativa de fabricação de uma revolução colorida foi em 1989, quando jovens partidários de Zhao Zhiang tomaram a Praça Tiananmen. A imprensa ocidental os apresentou como apolíticos defensores da liberdade no país mas depois se provou que haviam sido treinados pelo governo dos Estados Unidos. O episódio marcou na verdade a tentativa de um golpe de Estado que fracassou.
 

A primeira revolta colorida bem-sucedida ocorreu em 1990, na Bulgária. Sucederam-lhe muitas outras, entre elas a “revolução das rosas”, na Geórgia, em 2003; a “revolução das tulipas” em 2005, no Quirguistão; a “revolução do cedro” em 2005, no Líbano; sem esquecer a “revolução dos tratores”, na Sérvia, ocorrida após a brutal agressão comandada pelas forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e dos Estados Unidos.
 

A estratégia desses acontecimentos fabricados consiste em convencer o Estado a não utilizar a violência, o que abre caminho para a tomada do poder, que acaba sempre sendo violenta. Outra tática reside em colocar agitadores armados em ambos os lados do conflito, como ocorreu na tentativa de derrubada de Hugo Chávez, em 2002. Na época, o massacre de 19 pessoas atribuído aos partidários de Chávez – que mais tarde se comprovou foi obra de franco-atiradores da oposição – combinado ao clima de caos criado por emissoras de televisão corruptas e à ação de agentes americanos infiltrados levou à retirada do presidente do poder por 72 horas.
 

Um dos principais métodos utilizados para desestabilizar um país consiste em denunciar sem razão fraudes nas eleições. Em 2006, a desestabilização do Quênia transformou um pseudoparente de Obama em primeiro-ministro do país mesmo depois de ter perdido as eleições para presidente.
 

Um novo método, que tem sido usado recentemente, é o de fabricar revoluções coloridas mesmo sabendo que elas não serão bem-sucedidas mas que possibilitarão a manipulação de setores da opinião pública e a desestabilização financeira do país.
A mais recente dessas revoluções é a que foi tentada – igualmente sem sucesso – no Irã em 2009. Para realizar essa operação – reco-nhecida inclusive pela própria secretária de Estado Hillary Clinton – foram gastos US$ 400 milhões liberados pelo Congresso dos Estados Unidos, conforme relatou o jornalista Seymour Hersh, destinados a três grupos políticos: o aiatolá Rafsanjani, a família do xá destronado Reza Pahlevi e a organização Mujahedin do Povo. O objetivo final dessa ampla operação é a queda do regime islâmico, o retorno da monarquia após a instalação de um governo de transição e a entrega dos recursos energéticos do país aos Estados Unidos e à União Européia. Não custa lembrar que depois do colapso do regime dos talibãs no Afeganistão em 2002, Washington também tentou impor a volta da monarquia mas o príncipe herdeiro, com 88 anos de idade, já estava senil e não teve condições de participar da trama.
 

Na malfadada “revolução verde” do Irã um dado novo foi a emergência dos sites de convivência social Twitter e Facebook. Considera-se que o seu fracasso se deve ao fato de que o candidato escolhido, Mir Mousavi, comprometido no passado com posições muito duras e envolvido nos massacres de comunistas durante a presidência de Rafsanjani, não conseguiu catalizar o necessário apoio popular.
 

Como poderá ser uma revolução colorida no Brasil? Sabe-se hoje com certeza que esses processos não têm nada de revolucionários: eles não passam na verdade de uma mudança de governo com a aparência de revolução. Pode-se afirmar que – politicamente – esses movimentos são uma nova modalidade de golpe de Estado, em que uma elite de poder é substituída por outra mais dócil aos interesses dos americanos do norte.
 

O regime que emergiu da revolução das tulipas em 2005, no Quirguistão, liderado por Kurmanbek Bakiyev, vendeu todos os recursos do país aos americanos e instalou bases na cidade de Manas. Por sua vez, o governo fantoche de Mikhail Saakashvili, da Geórgia, invadiu a região predominantemente russa da Ossétia do Sul e matou 1.600 pessoas, sofrendo em seguida uma grande derrota militar.
 

Uma vez que o único propósito desses movimentos é tomar o poder, sua principal estratégia consiste em identificar no país a ser desestabilizado o ponto onde se localiza o descontentamento popular. Seu objetivo então é enfatizar o mantra de que a solução do problema levará a uma transformação completa da sociedade.
 

Num país como o Brasil, com uma das piores distribuições de renda do planeta, problemas no campo – onde quase a metade das terras são de latifúndios improdutivos – e nas cidades – com índices alarmantes de violência – pode-se afirmar com convicção que não faltarão temas candentes para desencadear não apenas uma nova revolução colorida de opereta mas uma verdadeira revolução social, com a mudança completa das estruturas de poder que sustentam um dos sistemas econômicos mais injustos da terra. Este não parece ser o objetivo dos poucos manifestantes que se reuniram esta semana em algumas cidades do país.
 

Um dos líderes do movimento, Julio Cardia, presidente do Estruturação, grupo LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transe-xuais e transgêneros) de Brasília, que participou de protestos contra Ahmadinejad, revelou algumas das suas coordenadas ao afirmar que a manifestação é a favor das minorias do Irã mas também contra o governo brasileiro por aceitar a presença do presidente iraniano no país. Ele considera que “a partir do momento que aceita essa visita, o governo está coadunando com a atividade dentro do Irã, e a gente é contra qualquer tipo de violação dos direitos humanos”.
 

A sabedoria popular considera que roupa suja se lava em casa e, assim, Julio Cardia poderia aproveitar também a oportunidade para levar seu propósito a sério e, junto com seus companheiros do movimento judeu com os quais “fizeram um mix”, segundo afirmou, protestar de forma veemente contra as brutais violações dos direitos humanos dos palestinos, submetidos a um cerco pelas Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) e impedidos de ter acesso pleno a água, luz, comida, transporte, serviços médicos, etc. além de serem impedidos de deixar o que é considerado o maior campo de concentração a céu aberto do planeta, onde mais de um milhão de pessoas vivem em uma faixa de terra de aproximadamente 360 km². Há pouco tempo, estiveram em visita ao país o ministro das Relações Exteriores de Israel, um notório genocida de extrema direita que já propôs resolver o problema palestino eliminando todos os palestinos, e o presidente de Israel, Shimon Peres, que apoiou o ataque de seu país aos habitantes de Gaza em janeiro deste ano, causando a morte de mais de 1.400 habitantes da região. No entanto, não tivemos notícia de que Cardia tivesse organizado qualquer manifestação contra a presença dessas figuras, apesar da grande exposição pública de Peres, que chegou inclusive a se encontrar com o jogador Ronaldo, do Corinthians.
 

A despeito das suas autoproclamadas convicções democráticas, pode-se dizer que Cardia na verdade coadunou – para usar as palavras da matéria – com claras violações de direitos humanos. Por outro lado, também demonstra em seu comentário dificuldade de conviver com as diferenças já que sequer admite que chefes de Estado de nações que mantêm boas relações institucionais e comerciais possam se encontrar.
É evidente que atitudes como esta não podem ser levadas a sério e é por isso que – mesmo com o apoio total dos meios de comunicação do país – o movimento coordenado por Cardia teve poucos adeptos. Ao longo da história, muitos homossexuais, umbandistas e judeus ofereceram grandes contribuições às mais elevadas causas da humanidade e é de se esperar que no futuro próximo muitos representantes desses grupos minoritários se oponham a práticas semelhantes.
 

Ao mesmo tempo, essas posições revelam outras intenções que nem sempre são claramente expostas. Uma delas, por certo, está na discussão que agora se realiza nas Nações Unidas acerca do Relatório Goldstone, produzido por um juiz da África do Sul de origem judaica, que considera que o Exército de Israel é culpado de crimes de guerra cometidos durante o recente bombardeio de Gaza, por haver de forma deliberada utilizado seu poderio bélico – inclusive armamento proibido por convenções internacionais de guerra – contra a população civil do lugar.
 

A discussão do relatório – evitada a todo o custo pelos Estados Unidos e Israel, mas que contou com o apoio até de aliados como a Inglaterra e a França – coincide com a divulgação de um outro relatório e de uma pesquisa, que também poderiam fornecer alguns temas para a reflexão de Cardia.
 

A organização israelense de direitos humanos Bethselem, para comemorar os seus vinte anos de existência, acaba de divulgar um informe sobre os últimos anos do conflito entre Israel e os palestinos. Segundo a ONG, Israel matou 7.400 palestinos desde 1989 ao mesmo tempo em que destruiu dez mil casas pertencentes a esse povo. Do total de mortos, 1.500 são crianças. O número de colonos judeus que se estabeleceram em território antes ocupado pelos palestinos aumentou de 60 mil para 420 mil pessoas, sendo que 300 mil apenas na região da Cisjordânia, controlada pelo Fatah. Os restantes 120 mil se instalaram em Jerusalém Oriental, outrora ocupada pelos palestinos. Por sua vez, os palestinos mataram 1.483 israelenses, dos quais 995 eram civis e 488 militares. Curiosamente, as colônias judaicas não estão se expan-dindo no território de Gaza e isto certamente se deve à ação enérgica do Hamas, que controla politicamente e realiza ações militares na área.
Sustentando esta política genocida do estado judeu-sionista, uma pesquisa recentemente conduzida entre a população judaica de Israel aponta que 53,9% de seus membros são favoráveis a táticas de limpeza étnica como a transferência dos árabes do país para outras nações árabes. Entre os consultados, 30,8% consideram que a solução dos dois estados – várias vezes proposta mas nunca implementada – é a mais aconselhável, 14,5% pensam que os árabes de Israel deveriam receber cidadania jordaniana, enquanto apenas 1,3% é favorável à situação atual.
 

As declarações do presidente do Irã são polêmicas embora estudiosos do idioma persa já tenham demonstrado de forma cabal que ele jamais disse que Israel deveria ser varrido do mapa. A não divulgação desta informação diz bem da absoluta falta de escrúpulos e de ética que caracteriza o comportamento dos meios de comunicação de hoje, que se organizam – ao arrepio da lei – em verdadeiras máfias criminosas, como demonstra a existência da famigerada Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP, na sigla em espanhol).
 

A questão do holocausto tem sido permanentemente camuflada e neste ponto parecem concordar com Ahmadinejad vários historiadores judeus. Um deles, Norman Finkelstein, foi recentemente proibido pelo governo de Israel de fazer uma conferência na Universidade de Jerusalém, o que mostra que no país também não há um verdadeiro regime democrático. Por outro lado, os judeus que vivem no Irã, apesar de insistentes propostas que envolveram inclusive uma boa soma de dinheiro, não aceitaram ir viver em Israel por considerar que são bem tratados no país islâmico.
 

As verdadeiras razões por trás da ignóbil campanha contra o Irã são o apoio claro que o país dá aos partidos políticos Hezbollah e Hamas, que se opõem à política expansionista do Estado judeu. Argumentos como os apresentados pelos Estados Unidos contra o programa nuclear do Irã soam cada vez mais hipócritas, principalmente quando se considera que partem da mais belicista potência que já existiu – hoje com mais de 700 bases militares espalhadas por todo o mundo – e pretendem na verdade ocultar o fato de que Israel possui 500 ogivas nucleares, conforme já afirmou várias vezes o ex-presidente americano Jimmy Carter.
 

Estes são os fatos, o resto são as diferentes versões para atender a interesses escusos ou – como se dizia no passado – meras intrigas da oposição.
 

Voltando à questão anterior: como se apresentará uma revolução colorida no Brasil? Pode se pensar que a sua cor será o arco-íris, o que parece muito apropriado uma vez que – como dizia a música – “o arco-íris já mudou de  cor...”.    

 

Sérvulo Siqueira