21 de setembro de 2010
 


O fantasma na máquina

À medida que se aproxima o final da campanha eleitoral e vão se definindo as preferências dos eleitores, ressurgem como sempre – e de maneira assombrosa – os velhos traumas e fantasmas, despertados pela lembrança de fatos vividos no nosso passado mais recente.
 

A polarização da disputa, que coloca de um lado uma velha classe política e partidários de um modelo muito perverso de desenvolvimento econômico hoje em franco declínio em termos de apoio popular – que recorrem a táticas de denúncias de escândalos de corrupção nem sempre comprovados – e de outro a candidata oficial, amparada pelo apoio de um presidente com imensa popularidade, traz a sensação de que as elites mais reacionárias que dominam este país há muitos séculos preparam um dramático e provavelmente muito bem calculado ataque final.
 

A própria candidata oficial, ampla favorita nas pesquisas para ganhar as eleições no primeiro escrutínio, a ser realizado no próximo dia 3 de outubro, afirmou em um emotivo pronunciamento que a oposição prepara “uma bala de prata”, com a qual espera implodir a sua crescente aceitação popular. Ao mesmo tempo, no entanto, e de forma paradoxal, a sua imagem a princípio muito vinculada ao atual presidente ganha autonomia e identidade enquanto seu adversário mais próximo perde apoio até mesmo entre os próprios correligionários.
 

Os cidadãos brasileiros que tiveram a oportunidade de votar nas eleições de 1989, a primeira a ser realizada neste país desde 1960, lembram-se com clareza do episódio que marcou os últimos dias do segundo turno da corrida presidencial de então, quando uma célula clandestina de esquerda sequestrou um riquíssimo empresário dono de uma grande rede de supermercados. Certamente muitos ainda se recordam do final espetaculoso do sequestro, quando um dos militantes deixou a casa onde haviam se refugiado vestindo a camisa do partido do candidato com a maior popularidade.
 

Somado a outros ultrajes, que compreenderam difamações, informações mentirosas da imprensa e provavelmente suborno, este enorme estelionato político terminou por levar à vitória do candidato de direita. Não faltou ainda, no dia das eleições, o lockout dos ônibus, orquestrado pelo sindicato patronal dos concessionários deste que deveria ser um serviço público. Os tempos mudaram e podemos até inferir que o eleitor brasileiro adquiriu maior consciência durante todo esse tempo, donde se pode concluir que semelhante manipulação não se repetirá.
 

No entanto, se o candidato José Serra se encontra muito distante da posição que então ocupava Fernando Collor nas pesquisas de opinião pública, as estratégias da direita também parecem ter se sofisticado. Sem conseguir obter apoio popular para suas pouco convincentes pregações em defesa da moralidade pública, a oposição ao governo Lula da Silva começa a propor abertamente um golpe institucional por intermédio da Justiça Eleitoral ou por via de um “pronunciamento” militar, como chegou a sugerir em algumas ocasiões o candidato da coligação liderada pelo Partido da Social Democracia Brasileria (PSDB).
 

Nesta linha, será quase inevitável que essa armadilha política caminhe – o que já se vislumbra claramente – para uma crescente vinculação de Dilma Rousseff com ações armadas de contestação do regime militar que perdurou de 1964 a 1985, repetindo uma estratégia de demonização que tem seu modelo na política imperial americana e é hoje frequentemente empregada por setores políticos e econômicos inescrupulosos em todo o mundo.
 

O exercício de especulação a que muitos partidários da candidata do Partido dos Trabalhadores (PT) já se dedicaram levou à conclusão de que este grande arco conspiratório que abarca os grandes órgãos de comunicação do país, os partidos políticos de oposição e poderosos grupos econômicos que sempre desfrutaram de enormes privilégios no Brasil trama um grande ardil contra Dilma Rousseff, visando demolir num só golpe o expressivo apoio popular que a candidata vem conquistando especialmente entre as camadas mais desfavorecidas da população.
 

Pelo modo como isso vem sendo conduzido, estima-se que a estocada final terá como eixo o suposto passado guerrilheiro de Dilma, associando-a a atos criminosos como assassinatos, sequestros, assaltos a bancos, etc. Certamente todo o tipo de montagens e falsificações fará parte desse processo, desde adulterações fotográficas, depoimentos forjados, fatos sensacionalistas fabricados, contando naturalmente com a expertise de marqueteiros de plantão nacionais e estrangeiros, técnicos de aluguel que se dizem especializados em expressão corporal, videntes e outros bruxos de campanha.
 

Como não se pode garantir a completa eficácia desses artifícios e levando em conta um certo enfado que a monótona repetição das artimanhas vem provocando na população, as nossas elites parasitárias preparam outras armas que acreditam possam ser mais eficientes. A Lei Eleitoral 12.034, promulgada em 29 de setembro de 2009 pelo presidente da República, que modifica muitos aspectos da Lei 9.504 de 30 de setembro de 1997, introduziu alguns dispositivos que já foram interpretados como tendentes a provocar a “supressão” do direito de voto, ou seja, podem ser consideradas como propensos a criar um fundamento jurídico que impeça os eleitores de votar.
 

Chamada de “minirreforma eleitoral”, a lei 12.034 teve como relatores duas das mais emblemáticas figuras da direita brasileira e muitos analistas insuspeitos do processo eleitoral acreditam que a introdução desse dispositivo teve como objetivo prejudicar Dilma Rousseff na região Nordeste, onde a população mais pobre – que deve votar de forma maciça na candidata do PT – talvez não tenha sido convenientemente informada acerca da nova exigência e em muitos casos não disponha de recursos para possuir mais de um documento.
 

Enquanto Marco Maciel (DEM-PE) – um político de enorme longevidade na cena pública brasileira, cujos ancestrais remontam aos ministérios conservadores de D. Pedro II e incluem governadores e prefeitos no estado de Pernambuco – talvez não tenha mais uma sobrevida, a Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que chega provavelmente ao seu ocaso como senador já que sob processo por peculato e lavagem de dinheiro no Supremo Tribunal Federal não alcançou as condições políticas para tentar a reeleição, talvez ainda lhe reste a saída pela porta dos fundos de um mandato de deputado federal, cargo que lhe garantirá a imunidade por mais algum tempo.
 

Aprovada de forma consensual por todos os partidos como um instrumento contra as fraudes eleitorais e promulgada pelo presidente da República no final do ano passado, a lei 12.304 modificou um dispositivo da lei 6.996, de 1982, que permitia que o eleitor votasse exibindo apenas um registro oficial que comprove a sua identidade e passou a exigir, além do respectivo título, que o votante também apresente um documento de identificação com fotografia.
 

Adotando um procedimento semelhante, o governo de Jebb Bush – irmão do infame George W. Bushinho – realizou uma verdadeira limpeza no colégio eleitoral da Florida, o que possibilitou a vitória fraudulenta do ex-presidente americano no estado contra Al Gore por 537 votos e sua consequente eleição presidencial em 2000.
 

Tramitam ainda na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal outros projetos que alteram a atual legislação eleitoral de 2009. O mais amplo deles é o que retoma a chamada minirreforma eleitoral. Reapresentada no primeiro semestre deste ano pelos mesmos notórios Eduardo Azeredo e Marco Maciel, a proposta recupera a maior parte das emendas aprovadas pelos senadores no ano passado, mas que não foram incorporadas pela Câmara.
 

As proposições da nova lei eleitoral provocaram a manifestação do candidato ao governo do Estado do Rio de Janeiro, Fernando Gabeira, que chegou a pregar à sociedade que desobedeça a lei caso ela seja aprovada no Congresso. Citando Thoreau, o candidato propôs uma forma de “desobediência civil” se o projeto que coloca a Internet sob as mesmas regras que a televisão e rádio passar no Parlamento.
 

Se a proposta for aprovada, esses meios de comunicação não poderão mais emitir opiniões sobre candidatos em eleições e serão obrigados a conceder o mesmo espaço para a cobertura da campanha de todos os políticos. Embora seja um veículo de livre iniciativa, a Internet também deverá seguir as mesmas regras que o rádio e a TV, que são concessões do poder público. Em tom de ironia, Gabeira afirmou, referindo-se de forma indireta ao mensalão de Minas Gerais:


O Azeredo precisa de um filho piedoso que diga a ele: pai, não se meta com a Internet, fique sossegado na sua pirâmide.
 

Temendo uma repercussão muito negativa na sociedade, os senadores já prometeram alterar o projeto de lei, que em seu texto original determina que sites noticiosos não poderão apoiar candidatos e exige que os blogs vinculados a eles não emitam opiniões sobre os políticos em campanha. Além disso, tais páginas virtuais terão que dar o mesmo espaço para todas as candidaturas. Caso esses sites decidam realizar debates eleitorais, os candidatos cujos partidos tenham mais de dez deputados federais deverão ser convidados.
 

Considera-se que se o projeto for aceito no Senado e na Câmara, a Internet ficará cada vez parecida com os meios impressos o que – levando em conta o alto grau de imoralidade e incompetência que envolve os meios de comunicação hoje no Brasil – prenuncia um cenário muito sombrio para a nossa sociedade. Considerando o risco de que essas proposições fascistas possam se transformar em lei, o deputado federal Julio Semeghini, do mesmo partido de Eduardo Azeredo (PSDB-SP), relator do Projeto de Lei 89/2003, também co-nhecido como Lei Azeredo ou AI-5 Digital, que propõe novas formas de enquadramento para os crimes de Internet e endurece a pena de outros já existentes, declarou que esse projeto de lei, que gerou grande polêmica na sociedade civil, não será aprovado pela Câmara. – “Não mereceria ser aprovado um projeto de lei desses. E não será. Não se preocupem”, afirmou o deputado durante um evento de tecnologia no início do ano, acrescentando ainda:
 

Nós fomos alertados e estamos achando que realmente não é o momento de aprovar com dúvidas, principalmente em relação ao texto e à forma como ele estava sendo colocado. Esse projeto está sendo reduzido a dois, três tópicos.
 

Sabe-se que, paralelamente à tramitação do projeto na Câmara, o ministério da Justiça desenvolve, com a participação da sociedade, um marco regulatório da Internet brasileira, que abordará os temas abrangidos pelo PL 89/2003. O texto já passou por consulta pública e agora espera uma forma final do governo para ser levado ao Congresso.
 

Na verdade, um dos grandes temas não explicitados nesta corrida presidencial é o que opõe claramente o ponto de vista do governo Lula ao de seu opositor José Serra, que advoga abertamente o controle da Internet. Uma outra questão-chave foi a recente revogação da proibição do humor em relação aos candidatos a postos eletivos, que representou uma vitória para o livre exercício do pensamento no país.
 

Personalidade nitidamente autoritária que tem revelado características fascistóides na campanha de 2010, Serra vem demonstrando com frequência uma notória incapacidade para conviver com o contraditório, como as perguntas inconvenientes dos repórteres e as observações que considera inoportunas, e já protagonizou episódios canhestros e de extrema grosseria como o ocorrido na rede de televisão CNT – amplamente noticiado e reproduzido por meio de uma gravação sonora em sites e blogs da rede mundial de computadores. Demonstrando uma clara forma de censura ou autocensura, o episódio foi convenientemente expurgado do programa levado ao ar na noite do último dia 15 de setembro. Mais tarde, de maneira fugidia, o diretor de jornalismo da emissora chegou a declarar que havia entregue à equipe do candidato do PSDB a gravação original da entrevista, não tendo guardado nenhuma cópia. Sua explicação para essa atitude foi exemplar:
 

Nós não temos interesse em campanha eleitoral.
 

A ocultação de acontecimentos de que participaram José Serra e a apresentadora Márcia Peltier, documentada pelo nítido registro das vozes – em que o candidato ameaça se retirar do programa durante a gravação e posteriormente determina à apresentadora o tipo de perguntas que está disposto a responder – lança um imenso véu de descrédito sobre a honorabilidade profissional e ética da rede de televisão e se estende – pela contínua repetição dos mesmos fatos – a vários outros veículos de informação como a Rede Globo, a Folha de S.Paulo, a sinistra revista Veja – que o jornalista Sebastião Nery considera que é escrita em inglês e posteriormente traduzida para o português –, o hebdomadário Época e outros.
 

Arrogante e prepotente com alguns, José Serra pode até assumir posições dóceis e submissas com outros, como ocorreu numa recente entrevista ao Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão quando foi bruscamente interrompido pelo apresentador logo após iniciar uma resposta à pergunta que acabava de ser formulada. Ao final, chegou mesmo a agradecer à emissora pela oportunidade concedida. Fica cada vez mais claro que a imensa maioria da população brasileira já compreendeu que o candidato do PSDB não reúne os predicados para assumir um posto de tamanha importância como o de presidente da República e isto já deve ser sido percebido pelo próprio postulante.
 

Por outro lado, vai se tornando extremamente necessário o debate neste país sobre o verdadeiro papel que os meios de comunicação de massa devem exercer na sociedade e a contribuição que os nossos veículos de informação – um sistema verdadeiramente feudal controlado por algumas famílias há mais de cem anos – vem oferecendo para o aperfeiçoamento do nosso modelo democrático ao longo do tempo. Embora disponham de uma grande força de pressão, será impossível evitar que os contínuos atos de deliquência – informação enganosa, deturpação e omissão de notícia, tratamento sensacionalista de assuntos, etc. – em que esses jornais, redes de televisão, rádios e revistas vêm incorrendo não levem a uma indagação profunda na nossa sociedade sobre questões sérias como competência, honestidade, integridade e ética profissional em uma atividade tão relevante quanto a da divulgação de notícias e o livre exercício da informação.
 

Ao se observar em voo de pássaro o comportamento dos nossos meios de comunicação, percebe-se que com raríssimas exceções eles sempre estiveram ao lado dos grupos econômicos e políticos dominantes – quando não eram parte integrante deles ou seus porta-vozes – patrocinando e defendendo ditaduras militares, planos econômicos falsificados, repressões policiais de sindicatos e associações populares, graves atos de corrupção e toda a sorte de iniquidades. Lembre-se por exemplo os famosos editoriais de primeira página do Correio da Manhã, Jornal do Brasil e O Globo no dia da derrubada do ex-presidente João Goulart, em 1964, o silêncio diante do Ato Institucional nº 5, em 1968, o papel da Rede Globo na repressão militar dos anos da ditadura (1964-1985) e um sem número de casos que são hoje de amplo conhecimento público. Com a exceção dos jornais Última Hora, depois praticamente fechado pelo governo militar, e O Estado de S. Paulo – com as suas famosas receitas – nenhum desses poderosos meios de informação ousou sequer resistir à truculência da censura, quando não se transformou em porta-voz do sistema político dominante ou praticou uma covarde forma de autocensura.
 

Seria o caso de se perguntar, de forma legítima: sendo uma concessão pública, portanto decorrente de um poder popular outorgado, qual é o papel social que esses órgãos de informação vêm exercendo no nosso país? Que contribuições vêm oferecendo para o aprimoramento das nossas instituições, do nosso desenvolvimento cultural e para o esclarecimento da grande maioria da nossa população, além de servir para o benefício de uma pequena elite de privilegiados ? As escassas informações que esses veículos têm a oferecer não resistem a um mínimo de questionamento. É de conhecimento público e notório, referendado inclusive pela sabedoria popular, que esta verdadeira casta acumulou benefícios apenas para si própria durante todo o século 20, além de defender seus exclusivos interesses e pontos de vista, constituir cartéis e grupos de pressão visando obter benefícios e favores, apoiar golpes de Estado e expropriações da economia popular e se omitir diante de gravíssimas questões diretamente pertinentes aos mais profundos anseios da população.
 

A quem realmente servem os nossos meios de comunicação? Nas atuais eleições presidenciais, de forma explícita, abusiva e sem pudores, os grandes órgãos de informação do Brasil vêm apoiando integralmente – e ao revés da grande maioria da população – o candidato do PSDB, transformando denúncias em fatos consumados, publicando manchetes escandalosas e sem a mínima comprovação, dando crédito desmedido a ex-presidiários, disseminando falsas informações, etc. Seu comportamento imoral parece baseado na estratégia da calúnia, considerando que – mesmo depois de completamente desmentida – sempre restará algo da difamação. Onde é que se escondem esses meios de comunicação para praticar tantos delitos? Certamente, na propalada liberdade de informação, direito que esses órgãos não foram capazes de defender durante o governo militar de 1964-1985, por exemplo. Sabemos hoje – em vista da contínua repetição de atos de mentira e omissão da informação – que esta liberdade se transformou em uma monstruosa libertinagem, tal como vem sendo cada vez mais vista e analisada por inúmeros comentaristas no Brasil e no exterior.
 

As eleições presidenciais de 2010, um grande cenário com 135.804.433 protagonistas, apresentam certas peculiaridades e levantam algumas questões: uma vez que os dois candidatos mais populares se caracterizam por serem defensores do mesmo modelo neoliberal, quais são concretamente as suas diferenças? O que faz com que – segundo todos os institutos de pesquisa da opinião pública – a postulação de Dilma Rousseff disponha de uma aceitação popular muito superior à de seu concorrente? O que levou o candidato de oposição José Serra, apresentado a princípio como provável vencedor, a cair de forma tão abrupta nas sondagens a despeito do maciço e quase unânime apoio dos meios de comunicação?
 

Percebe-se hoje que a fabricação da candidatura Serra teve o propósito de produzir um factóide, um simulacro político com o qual as elites econômicas e políticas esperavam – assim como fizeram com Fernando Collor em 1989 – atingir os seus objetivos. Trombeteavam a sua enorme clarividência, propagavam a comprovada capacidade administrativaexercitada no decorrer de uma longa vida pública e alardeavam que todos esses méritos esmagariam as parvas qualidades de sua adversária. Agiram assim da mesma forma como o haviam feito em relação ao atual presidente, de quem diziam que não teria as credenciais para dirigir o país. Sabe-se hoje que estavam completamente errados porque Lula da Silva não apenas se revelou estar à altura do cargo como ultrapassou em todos os pontos o seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, tornando-se o mais popular presidente de toda a história recente do Brasil. Recuperou o sentimento de amor-próprio do brasileiro médio, alcançou reputação internacional como um estadista com visão global, mediou conflitos internos com prudência e um agudo senso de sobrevivência, favorecendo na maior parte das vezes os mais poderosos mas sem esquecer os pequenos e humildes, de cujo seio emergiu em sua condição de migrante nordestino.
 

Poder-se-ia perguntar por que, tendo proporcionado tantos lucros aos grandes grupos econômicos, ainda assim continua a ser tão hostilizado pelos meios de comunicação, as chamadas doze famílias que controlam o nosso cartel da informação. Muitos acreditam que talvez a questão não seja propriamente econômica mas política e sobretudo cultural. A ascensão do antigo operário metalúrgico, um ex-torneiro mecânico que chegou a perder um de seus dedos num acidente de trabalho, pode ter representado um acontecimento extraordinário e imprevisível para as nossas elites econômicas e políticas que – por mais de 500 anos e desde o Brasil Colônia – sustentaram um dos mais cruéis sistemas de opressão social e econômica da história moderna.
 

Tendo assumido a presidência em 2003, Luís Inácio da Silva vem evidenciando para a população brasileira a perversidade do governo de Fernando Henrique Cardoso, não porque tenha realizado uma revolução no país – na verdade, sua administração esteve muito longe disso – mas porque demonstrou em tão curto tempo quão pouco os seus antecessores, à exceção de Getúlio Vargas, haviam feito pelo nosso povo. Daí resulta que as eleições de 2010, embora coloquem de um lado a candidata do governo e de outro o seu opositor direto, representam verdadeiramente um plebiscito entre um Brasil concebido e projetado pelo modelo neoliberal do governo do PSDB-Frente Liberal (o ovo onde germinou o atual Democratas, DEM), um país colonizado de consumidores e governado por uma democracia de mercado, onde os empresários são os condutores da opinião pública e o Banco Central “independente” rege a economia, e o Brasil de Lula que – embora possa ter muitas semelhanças com esse projeto – parece rejeitar essa camisa-de-força. Ao assumir o primeiro plano do proscênio político, Lula não fugiu à responsabilidade de dar uma face ao seu governo, com todas as decorrências que possam ser atribuídas a esse personalismo. O resultado é que os brasileiros sabem hoje que seu presidente é um homem que veio das camadas mais baixas da população e se sente orgulhoso do seu povo – ao contrário de FHC, que dizia sarcasticamente que tinha “um pé na cozinha” – que aprecia uma boa caipirinha e não se envergonha de vestir a camisa do seu time de coração, que comete erros de português mas se expressa com sinceridade e emoção, e representa portanto o oposto do arquétipo do personagem estereotipado destilado nas telenovelas, nos noticiários falsificados e no discurso ideológico das classes dominantes.
 

Uma vez demonstrada a enorme mediocridade do Frankenstein José Serra criado pela direita brasileira e comprovado o seu rápido deslizar para o ostracismo das denúncias sem fundamento, a verdadeira questão dessa eleição passou a ser a polaridade entre um Brasil que parece novo mas que existe há muito tempo e apenas permanecia escondido por trás dos canastrões das telenovelas, das manchetes mentirosas dos jornais impressos, do rádio e da televisão – e o país que os juristas e empresários do PSDB procuraram fabricar.
 

Esse factóide, do qual Fernando Henrique Cardoso e José Serra são apenas alguns dos epígonos, não teria sido certamente possível sem o grande braço de propaganda orquestrado pelo oligopólio da Globo, que urdiu o apoio popular que possibilitou os longos anos do regime militar e criou a atmosfera irreal que permitiu o desmantelamento do Estado promovido por FHC de 1994 a 2002 no Brasil.
 

A ascensão de Lula da Silva parece ter representado para o verdadeiro poder real de direita, que as chamadas Organizações Globo encarnam hoje no Brasil, a emergência de um contraditório, uma contrafação da imagem que esse sistema de comunicação deseja forjar do país. Neste sentido, as eleições de 2010 vêm adquirindo um caráter plebiscitário de escolha entre um Brasil real, verdadeiramente mestiço como observa João Ubaldo Ribeiro, e um país falsificado, edulcorado, semelhante aos galãs de novela, aos empresários salvadores da pátria e aos tecnocratas de linguagem complicada e inócua.
 

Por outro lado, como manteve a mesma política do governo anterior, Lula não mudou as estruturas sociais do país, continuou a subordinação da nossa economia ao capital estrangeiro, chegando a manter na presidência do Banco Central um verdadeiro operador do sistema, privilegiou os bancos e as altas taxas de juros e comprometeu a possibilidade de uma reforma agrária mais ampla ao estimular o agronegócio visando angariar divisas com a exportação. Embora a propaganda oficial anuncie grandes obras em andamento, seus efeitos – com a exceção da oferta temporária de empregos – ainda não produziram uma real mudança na sociedade.
 

O que é que realmente tanto diferencia o atual presidente das nossas tradicionais elites se suas políticas econômicas são tão semelhantes? Seria apenas uma questão de estilo, de diferentes arquétipos? De um lado, a postura tradicional do galã das novelas da Globo tipificado no protótipo encarnado hoje pelo ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves, e representado no passado pelo destronado Fernando Collor e, de outra parte, o modelo mais autenticamente brasileiro do homem de baixa estatura, com acentuada origem nordestina, que com seu linguajar simples e direto revela o amplo desejo que as classes mais desfavorecidas deste país têm de ocupar um lugar de destaque na construção da nossa sociedade.
 

Após sair da imensa letargia em que o governo de Fernando Henrique Cardoso mergulhou o país, o povo brasileiro se deparou com um presidente que representava – quando não em sua essência – ao menos na aparência o oposto do seu precedente, e essa imagem foi imediatamente percebida pela população como muito mais próxima do Brasil real. Em sua condição de político perspicaz e inteligente, Luís Inácio da Silva soube tirar um imenso proveito dessa clara identificação, conseguindo eludir com grande habilidade as mais difíceis crises políticas até emergir às vésperas das eleições de 2010 como a verdadeira encarnação das mais profundas aspirações de ascensão social e econômica do povo. Como as eleições representam o único momento na história do nosso país em que as camadas mais baixas da população são minimamente levadas em consideração, seu imenso respaldo popular pode fazer uma grande diferença.
 

Se essa mudança de parâmetro, se a emergência de um novo arquétipo popular levar a um maior esclarecimento das classes mais baixas, fazendo com que abandonem a imobilidade a que foram confinadas em seus reduzidos espaços domésticos imposta pelo torpor ilusório das telenovelas, das mentiras e falsificações dos jornais da noite, das pegadinhas dos programas de auditório e assumam a consciência do seu verdadeiro papel histórico, aí então teremos o início do processo de transformação no Brasil, que foi brutalmente interrompido com o golpe militar de 1964. Nesse momento poderemos então dar o salto qualitativo em direção à condição de uma grande potência habitada por cidadãos qualificados, que sempre representou a verdadeira aspiração da nação brasileira.
 

No imaginário popular, o destino dos ex-presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart sempre foi identificado à sua luta pelos menos favorecidos. Ao assumir o primeiro plano na campanha eleitoral e vincular de forma dramática o seu governo a esses ícones do povo, Lula pareceu compreender claramente essa questão que hoje perpassa os corações e mentes dos brasileiros, quando afirmou em recente comício:
 

Quando a direita raivosa, quando a direita com ódio, a mesma direita que articulou e levou Getúlio Vargas a dar um tiro no coração, que levou o João Goulart a renunciar, a mesma que disse que Juscelino não podia ganhar e se ganhasse não podia tomar posse…


Consciente de que as elites reacionárias do país querem se apoderar das benesses geradas pela sua política econômica, dos frutos das gigantescas jazidas de petróleo e gás há pouco descobertas para a sua privatização e entrega ao capital estrangeiro, e da estabilidade da situação política e econômica brasileira, Lula conclamou a participação popular nas atuais eleições – ameaçada também pelos expedientes da legislação – lembrando episódios da história recente:
 

Essa mesma direita tentou fazer o mesmo comigo em 2005 e não fez. Eu tinha um ingrediente a mais. Eu tinha vocês. Eles nunca tinham lidado com um presidente da República que tinha nascido no berço da classe operária…
 

Por sua vez, a candidata Dilma Rousseff observou que “em 2002, eles diziam que não tínhamos competência para governar. Hoje, podemos falar que um metalúrgico foi capaz de fazer mais escola técnica do que os doutores que vieram antes”.
 

De forma contínua, o candidato José Serra e seu vice, um político menor sem nenhum escrúpulo, vem proclamando que – a despeito de amplas evidências e todas as indicações das mais diferentes pesquisas – o dia 3 de outubro representará uma realidade completamente nova para o país.
 

Abandonados pelos próprios companheiros, rejeitados pela opinião pública e até mesmo desmoralizados em algumas instâncias, como é que eles pretendem mudar esta situação?

 

Sérvulo Siqueira