11 de março de 2015

 

O “monstro” voltou

 

Considerando o amplo histórico de agressões do declarante, as afirmações do governo americano de que a Venezuela é uma ameaça à segurança do país anglo-saxão devem ser interpretadas corretamente.

Levando ainda em conta o momento em que acontecem ‒ depois de uma tentativa de golpe organizada pelos ianques que foi frustrada por Maduro ‒ e após a humilhação imposta ao governo fantoche de Barack O’Bomber pelo genocida Netanyahu, lembram grotescos episódios da vida quotidiana em que o valentão que se acredita imbatível acaba sendo derrotado por um outro mais bem preparado ‒ e ‒ para descarregar a sua ira ‒ termina batendo num garoto menor.

No entanto, como é muito pouco provável que um país que ‒ segundo muitos observadores ‒ gasta um trilhão de dólares em armamento, defesa e espionagem possa ser ameaçado por outro cujo conjunto das riquezas produzidas durante todo o ano de 2014 foi de aproximadamente 550 bilhões de dólares, a afirmação deve ser considerada como a fabricação de um pretexto para uma agressão que deverá ser desfechada num futuro bem próximo a uma nação vizinha do Brasil na América do Sul.

Por outro lado, a postura do governo norte-americano ‒ que foi seguida pelas tradicionais sanções que tem o hábito de aplicar aos seus inimigos ‒ dá bem a medida da arrogância que norteia a sua política externa ao não aceitar que a embaixada americana em Caracas seja obrigada a reduzir os seus funcionários de 100 para 17, o mesmo número com que conta a embaixada da Venezuela em Washington. Com esta exigência, Maduro mostrou que seu governo tem conhecimento de que a quantidade exageramente elevada de burocratas de muitas representações diplomáticas dos Estados Unidos no mundo é apenas mais uma camuflagem destinada a ocultar que a sua grande maioria é composta por especialistas treinados da Agência Central de Inteligência (CIA) e de outros órgãos de espionagem, que se ocupam em geral de praticar assassinatos programados, executar sabotagens de serviços públicos e organizar complôs para a execução de golpes de estado que levem à imposição de governos fantoches a serviço dos States.

Explica também a aura de descrédito que cerca a reputação que os Estados Unidos vêm granjeando nos últimos 20 anos e que hoje faz com que seja visto em toda a parte como a maior ameaça à paz na face da Terra.

Dado o retrospecto que tem caracterizado as declarações desse tipo, é muito provável que venham a ser sucedidas por terríveis atos de desestabilização no país vizinho. Assim, devemos esperar em breve por ataques contra propriedades dos gringos na Venezuela, assassinatos da população civil perpetrados por capangas a soldo dos ianques mas que ‒ com a prestimosa colaboração dos meios de comunicação subservientes e corruptos ‒ serão atribuídos a sicários a serviço do governo de Maduro, além de ações de desestabilização e sabotagem por elementos de quinta coluna no interior da própria administração do país que serão praticadas para que O’Bomber possa levantar falsas bandeiras a partir das quais justifique uma invasão.

Como a princípio a população americana não deverá apoiar uma nova frente de guerra de um país que já está atolado em muitas e as vem perdendo todas, o establishment americano deve considerar também a hipótese de que o governo venezuelano ‒ 3º maior fornecedor de petróleo aos EUA ‒ poderá recorrer ao expediente de cortar o suprimento do produto o que, ao levantar o espectro de um aumento no preço da gasolina, talvez tenha o condão de galvanizar o indispensável apoio popular para um empreendimento militar.

Eleito com um programa declaradamente muito mais pacifista do que George W. Bushinho, o Prêmio Nobel da Paz Barack O’Bomber na verdade já patrocinou mais golpes no hemisfério do que seu antecessor e poderia ter produzido outros se não tivesse sido malsucedido em alguns casos. Carrega no entanto a responsabilidade de ter derrubado os presidente Manuel Zelaya de Honduras, em 2009, e Fernando Lugo, do Paraguai, em 2012.

Estes dois golpes de estado, que se caracterizaram por apresentar algumas particularidades em relação às deposições clássicas de governos eleitos da América Latina no século passado, foram orquestrados no parlamento dos respectivos países mas contaram ‒ especialmente no caso de Honduras ‒ com sólido apoio militar.

A derrubada de governos legitimamente eleitos marcou ‒ depois de uma pausa de aproximadamente 20 anos ‒ o retorno às interferências golpistas dos Estados Unidos na vida dos países da América Latina. Durante esse tempo, o braço pesado do Tio Sam se moveu em direção ao Oriente Médio ‒ onde destruiu sucessivamente o Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria ‒ e à Europa, onde bombardeou a Iugoslávia e agora se envolve na Ucrânia, apoiando grupos neonazistas, sem deixar nunca de fustigar o Irã, para agradar ao seu grande aliado, Israel.

Chegamos a acreditar ingenuamente que estávamos livres do “monstro”, como o chamava o poeta e libertador Jose Martí.

Agora, ele está de volta e ‒ com os fanáticos neocons e o presidente de fachada do Grande Irmão do Norte ‒ parece ainda mais assustador do que antes.

 

                                                                                 Sérvulo Siqueira