11 fevereiro 2011

11 de fevereiro de 2011

- “Meu general, já temos a nossa liberdade. Agora, o que faremos com ela?” (Frase atribuída por um entrevistado da CNN a um manifestante da Praça da Libertação, no Cairo.)

Por 30 anos, o Exército e Hosni Mubarak reprimiram as manifestações populares, encarceram e mataram os opositores do regime e impediram a livre expressão de pensamento no Egito.

Agora, aproveitando-se de um movimento amplamente popular no País, os Estados Unidos mandaram as Forças Armadas derrubar o velho parceiro Mubarak e prometer exatamente aquilo que impediram por tanto tempo: liberdades democráticas, eleições livres e críticas da oposição.

Dá para acreditar nesta história?

Por trás desta imensa mobilização de poder, está o temor dos EUA e de Israel de que se propague o prestígio cada vez maior do Irã na região e de sua influência sobre todo o Islã, que hoje já se faz sentir na Síria, na Turquia e no Líbano.

Segunda mentira:

Por mais intensos que tenham sido os 18 dias de grandes manifestações populares, o movimento egípcio não é uma “revolução”, como se apregoa. Uma verdadeira revolução é um processo por meio do qual uma classe derruba outra classe do poder. Até onde se sabe hoje, a burguesia egípcia e seus aliados, o Exército e os interesses americanos e israelenses, não foram destronados do poder que mantêm e continuam a controlar a vida econômica da região.

Um terceiro problema para os Estados Unidos e Israel, resultante do espalhafatoso apoio ao movimento: o que pensarão, por exemplo, seus outros aliados como as monarquias da Jordânia e da Arábia Saudita, e os governos-títeres altamente repressivos da Argélia, do Marrocos e do Iêmen diante da perspectiva de serem vítimas da sanha “revolucionária” de jovens famintos de democracia e de comida? Será que as “redes sociais” – Facebook, Twitter e outras – derrotadas no Irã, se transformarão numa nova força política na região?

Neste cenário digno da “sociedade do espetáculo” de Guy Debord, um picadeiro eletrônico montado pelos americanos sobre acontecimentos tão relevantes, para onde penderá o glorioso exército egípcio? Tudo indica que para os braços dos Estados Unidos que lhe fornecem dinheiro, armas e treinamento com os quais massacra a população do País, mata os palestinos, guarnece e fecha as fronteiras de Gaza, além de rastrear armas enviadas para o Hamas e impedir a chegada de alimentos aos territórios ocupados. Ou, numa situação quase impensável até há pouco tempo, buscará um diálogo com outros países islâmicos que já não rezam pelo diktat do catecismo neoliberal israelense-americano?

Outra questão:

Como irão os meios de comunicação e o establishment ianques explicar que a tomada de poder pelas Forças Armadas do Egito não foi um típico golpe de estado e sim uma transição democrática de poder? Será que isto ainda importa nos dias de hoje ou as ações contra governos que perderam o apoio dos Estados Unidos não são mais consideradas golpes de estado, como ocorreu recentemente em Honduras?

Uma outra pergunta:

Mesmo após ter entregue o poder às Forças Armadas – a quem comandou por 30 anos – qual será a influência que Hosni Mubarak poderá exercer sobre o novo governo? Muitos analistas pensam que o velho ditador – antigo cão de caça americano – continuará a desempenhar um importante papel e que inclusive poderá interferir na escolha de seu sucessor.

Mais uma mentira: o que os meios de comunicação corporativos, a chamada imprensa burguesa reacionária e golpista, estão tentando vender ao mundo é falso. Não são os “valores democráticos” nem as redes sociais dos Estados Unidos que deram forma e organização ao movimento. Pelo desenrolar dos acontecimentos, pode-se dizer que a insurreição egípcia – que nasceu de simples demandas da população – tomou o Ocidente de surpresa, que só pôde avaliar o seu crescimento e organização numa segunda etapa e ainda assim quando percebeu que poderia tirar partido de suas mensagens e demandas para alimentar os seus hoje decadentes valores humanos.

O que está em jogo hoje, no entanto, mais do que meras questões políticas ou slogans de propaganda, é o verdadeiro núcleo de todo este sistema brutal: o seu modelo fundado na economia neoliberal. Estas são as razões do movimento: a falta de uma perspectiva de sobrevivência econômica para uma grande parte da população do Egito, composta maciçamente de jovens, a inexistência de postos de trabalho, o custo de vida exageradamente alto, mazelas que atingem não apenas os cidadãos daquele país mas que se estendem a 80% da população mais pobre da Terra, que se vê reduzida a desfrutar de apenas 20% de suas riquezas enquanto menos de 20% dos seus habitantes, localizados nos países mais ricos da Europa, Estados Unidos e Japão, ficam com mais de 80% de suas benesses.

Esta é a grande verdade que parece emergir deste extraordinário movimento de 18 dias que derrubou um ditador que estava no poder há 30 anos. Fica cada vez mais claro que o injusto modelo liberal baseado na concentração de riqueza imposto pelas nações mais avançadas do capitalismo ocidental não atende mais às mínimas exigências dos antigos países do Terceiro Mundo mas começa a corroer os seus fundamentos em seu local de origem. Vejamos as recentes crises da Islândia, Grécia, Irlanda e do próprio Estados Unidos.

Sobre isto, os meios de comunicação corporativos que hoje cantam a vitória de seus falsos valores, mas que não tiveram a capacidade de interpretar os acontecimentos que supostamente deveriam retratar, têm pouco ou nada a dizer.

Vivemos no dia 11 de fevereiro dois acontecimentos distintos: de um lado, um momento histórico que marca o começo de uma grande insurreição no mundo árabe do Oriente Médio contra a opressão e a tirania e, de outro, o banal e sempre repetitivo circo midiático patrocinado pelos grandes meios de comunicação que pretendem nos convencer que a Europa e os Estados Unidos da América – que por tanto tempo apoiaram e financiaram estes regimes que agora são escorraçados pela sua população – são na verdade os campeões da democracia e os verdadeiros promotores dos valores de dignidade e justiça. Uma pergunta que, um dia, também será feita aos iraquianos, aos afegãos, aos africanos e a muitos outros povos, inclusive a nós, latino-americanos, que já passamos e continuamos a passar por aquilo do qual os egípcios podem estar se livrando neste momento.

                                                                                                              Sérvulo Siqueira