8 de outubro de 2001

 

Fragmentos de um manuscrito: diário de uma guerra fabricada

Os habitantes da terra se dividem em dois: aqueles que têm um cérebro mas não têm uma religião e aqueles que têm uma religião mas não têm um cérebro.

O destino nos demoliu como se fôssemos de vidro. E nossos destroços não se recomporão jamais.

Abdul Ala’a al-Ma’ari, poeta cego de Ma’arrat al-No’man, Síria, morto em 1057

 

O primeiro dia depois dos ataques americanos ao Afeganistão, um dos países mais pobres da terra. Será esse o começo de uma nova era? Rumores de uma possível guerra bacteriológica nos Estados Unidos da América (EUA), não muito diferente das que os americanos fabricaram em Cuba, no Vietnã e em outros países do planeta. O feitiço estará se voltando contra o feiticeiro? Fala-se de um novo tipo de conflito: a guerra assimétrica, enquanto o cenário de medo parece ser a atmosfera que nos reserva o futuro.

10 de outubro de 2001

Um estudo de Michel Chossudovsky revela como as relações do governo americano com o hoje inimigo nº 1 dos EUA existiram até dois anos atrás. Será que se repete aqui a velha história de Lúcifer, o anjo rebelde? A mitologia cristã parece ter a capacidade de se reproduzir invariavelmente sob os mais diversos disfarces. Como será afinal desta vez? O discurso maniqueísta aparentemente está chegando a sua apo­ria. Nos anos 70, com Saddam Hussein – fortalecido para acabar com o Partido Comunista Iraquiano e o aiatolá Khomeini – mais tarde com Noriega, que participou do assassinato de Omar Torrijos, e agora com Bin Laden, aliado na luta pela derrota da União Soviética e a fragmentação da Iugoslávia. Todos eles rebelados ou expulsos do paraíso da globalização pela onipresença da única potência sobrevivente da Guerra Fria.

11 de outubro de 2001

No mesmo artigo, Chossudovsky lembra como os serviços secretos americanos se utilizaram do expediente de mandar armas aos islâmicos da Bósnia em embalagens, pacotes e sacos que, na verdade, deveriam conter alimentos, porque a Organização das Nações Unidas (ONU) havia proibido o envio de armamentos a qualquer uma das partes do conflito. E foi assim que terminamos o século/milênio: sob a égide da total falta de escrúpulos do homem no afã de atingir os seus objetivos. A ética (ethos), um conceito tão central no pensamento estóico grego (séculos V e IV A.C.) parece ter se tornado totalmente obsoleta no limiar desta nova era.

12 de outubro de 2001

Olhando com atenção pode-se perceber que Osama Bin Laden, que a propaganda americana transformou num vilão, está se tor­nando um herói dos povos oprimidos pela simples razão de que ousou desafiar os poderosos de Washington e Nova York.

Para quem há apenas dois anos ajudou a Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) em operações no Kosovo e na Chechênia, não há dúvida que esta foi uma mudança extraordinária. Basta observar as pessoas simples da rua olhando a imagem do chamado megaterrorista para se perceber como estão esperando apenas mais algumas evidências para sagrá-lo um herói dos oprimidos e alguém que conseguiu derrotar os invencíveis.

13 de outubro de 2001

Há alguma coisa de muito estranho acontecendo nesta guerra. Os islâmicos se recusam a acreditar que Bin Laden possa ter tido a capacidade de explodir os edifícios. Outros lembram que suas relações com a CIA foram bem próximas e ainda são muito recentes. Um famoso jornalista egípcio afirma que no Afeganistão não há nada que valha se­quer o custo de um milhão de dólares de um míssil Tomahawk – quanto mais os enormes gastos desta imensa guerra. Enquanto isso, bombas de duas toneladas destróem quarteirões em cidades arrasadas e aniquilam mesquitas ao mesmo tempo em que a indústria bélica americana vende aviões para a Coréia do Sul atacar a sua irmã do Norte.

No outro lado do front da guerra, deputados atônitos votam em clima de medo de novos atentados um projeto de lei apresentado pelo governo americano sem ao menos ler o seu texto integral. Vista em seu conjunto, tem-se a impressão de que está em processo uma das maiores manipulações da opinião pública na história.

14 de outubro de 2001

Li algumas matérias da edição dominical do New York Times. É incrível como os americanos – e parece que são todos – não se deram conta do significado que os acontecimentos de 11 de Setembro tiveram. De forma quase unânime, eles reagem com medo, insegurança, con­sideram que o seu despreparado e mal intencionado presidente está conduzindo bem o governo, a despeito da perda dos direitos e garan­tias constitucionais, dos bombardeios com mortes no Afeganistão, da paranóia fabricada do Anthrax e da imensa manipulação dos meios de informação para vender armas e estabelecer a confiança na América por meio da força. Pobre rico povo americano, sem mãe e à procura de um pai. Triste quando figuras tradicionais e respeitáveis perdem a noção das coisas e incensam um farsante de rodeio como esse George W. Bushinho, esperando encontrar nele um guia que lhes ensine uma lição que já esqueceram.

15 de outubro de 2001

O fim do socialismo soviético cuja persistência, por mais de 70 anos, alimentou os sonhos mais visionários do homem durante todo o século 20, deixou um vácuo cuja amplidão ainda não foi preenchida. Combatentes da Guerra Fria – Kosovo e Milosevic, talibãs, Bush e a camarilha do Pentágono – ainda continuam a assombrar as consciências atormentadas dos seres humanos em uma nova realidade, que eles ainda não sabem identificar corretamente e que está longe de se constituir no melhor dos mundos sonhado.

No outro lado do mundo, o Partido Comunista Chinês promove um florescente capitalismo que fatalmente irá se confrontar – na busca pelo domínio da economia global – com um provavelmente combalido sistema econômico ianque.

18 de outubro de 2001

Já há alguns sinais de que a opinião pública americana começa a desconfiar que pode estar sendo enganada pelo seu próprio governo. Um artigo no New York Times afirma que o atentado ao World Trade Center foi planejado por jovens sauditas insatisfeitos com o apoio dado pelo governo americano à Arábia Saudita. Por outro lado, um famoso jornalista americano considera que os casos de Anthrax podem ter sido forjados por descontentes dentro do território americano e cita o Unabomber como exemplo. Ao mesmo tempo, bombardeiros dos Esta­dos Unidos atacam o prédio onde operam as redes de televisão CNN e Al-Jazeera. O fato de que não houve mortos é muito significativo porque indica que os órgãos podem ter sido avisados antes ou que os ataques tenham sido realizados de madrugada. Em qualquer um dos casos, os equipamentos podem ter sido danificados e a informação tem­porariamente prejudicada. O pior vai ser quando uma dessas bombas inteligentes matar um jornalista anglo-saxão aliado.

20 de outubro de 2001

Mais do que o perigo de uma contaminação química ou bacteri­ológica, o risco de uma contaminação política ronda o Brasil. Numa semana, três casos – dois deles falsos – e uma bomba precária troux­eram para o nosso Bananão a proximidade desta guerra americana, que parece mais contra si mesmo do que contra os afegãos. Vitimados pelas guerras e pelas drogas, os afegãos são uma expressão miserável dos mesmos males que afetam a rica sociedade americana.

Que sina macabra ataca este país tão rico, que a cada dois ou três anos necessita fazer uma guerra e descarregar as suas bombas de um milhão de dólares para possibilitar à indústria da morte repô-las ao Pentágono e assim manter em alta o orçamento de US$ 500 bilhões!

De forma impressionante, essa sociedade tão opulenta se volta cres­centemente para países cada vez mais pobres – como o Afeganistão e a Somália – aniquilando-os como se isso fosse um simples passatempo de videogame.

23 de outubro de 2001

O Afeganistão, que já recebeu mais de 3.000 bombas dos EUA, é um dos países mais pobres da terra. Está incluído numa lista da Organização das Nações Unidas entre o que consideram the least of the last – os 46 países mais pauperizados do planeta. Assim como o Iraque, Moçambique e Angola, já perdeu um milhão de habitantes em guerras nos últimos 20 a 30 anos. Apesar de toda a sua pobreza, nunca foi verdadeiramente ocupado, a não ser por um breve período de tempo. A cultura de seus habitantes é a de defesa própria – já que o estado praticamente não existe – e é por isso que cada menino, ao completar 14 anos, recebe do pai uma adaga. Além dos conflitos de ordem tribal, há também os de caráter linguístico porque enquanto parte da população fala o urdu – principalmente os pastuns – os uzbeques se exprimem em persa. Estima-se que mais de um terço dos combatentes irá se dirigir às montanhas para continuar lutando. É com esse povo que os gringos branquelos estão se metendo.

25 de outubro de 2001

A sociedade americana disfarça a sua imensa fragilidade psíquica com um apego excessivo aos bens materiais – dinheiro, meios téc­nicos – acreditando assim compensar a ausência crescente de uma vida interior numa sociedade que oferece acesso fácil a carros, com­putadores, diversões de todos os tipos e outras miríades de consumo que tendem a atrair o homem para fora do seu próprio eu interior e terminam por fragmentá-lo e despersonalizá-lo. Estas considerações surgem à propósito de um boato tão frágil como o do Anthrax. A reação dos americanos do norte esconde a grande dificuldade que têm de conviver com algo que não podem controlar. Assim, para se prevenir contra o inesperado, os anglo-saxões expandiram o seu desejo de poder e o fizeram de tal forma que hoje necessitam controlar todo o mundo exterior para não serem devorados pelo seu próprio demônio interior.

30 de outubro de 2001

Provavelmente esta guerra ainda irá durar por um longo tempo, até que algo ainda pior venha a acontecer. Na verdade, o que parece estar ocorrendo é uma luta pelo poder no território dos EUA. Depois de emergir de um processo eleitoral cujo desfecho pareceu altamente nebuloso, a camarilha que se apossou da Casa Branca fabricou um inimigo externo islâmico para sufocar um verdadeiro adversário in­terno, os grupos políticos que se encastelaram no poder nos últimos oito anos por meio da administração Clinton. Ao conseguir unificar a nação contra um falso inimigo externo, Bushinho e sua gangue pre­tendem – com slogans belicistas e falso patriotismo – impor o diktat do complexo industrial-militar.

8 de abril de 2003

A invasão do Iraque expõe o princípio da globalização: deixar cair as bombas para fazer subir as bolsas. Bombardeios atacam o palácio de Saddam na noite de domingo para que as bolsas da Europa, Japão e Estados Unidos possam abrir em alta na segunda-feira de manhã.

6 de abril de 2004

Um ano após a imprensa americana anunciar a libertação do Iraque, a brutal máquina de guerra dos EUA começa a se desmantelar na Mesopotâmia. As imagens de combatentes celebrando a retomada de terras ocupadas de seu território – ainda que isso possa ser provisório – prenunciam o cenário de um filme que já vimos e que certamente não terá um happy-end hollywoodiano.

                                                                                                   

                                   Sérvulo Siqueira