4 de junho de 2014

 

Dilma: um cheque em branco de Lula que o Brasil endossou

(E não tinha fundo!)

 

Passados quase três anos e meio da sua posse, o governo de Dilma Vana Rousseff vem se mostrando como mais uma decepção em relação à expectativa criada pela sua vitória, um novo estelionato político imposto pelas classes dominantes ao povo brasileiro.

Marcada por um forte personalismo – sob influência do elemento português, ibérico e peninsular que já motivou um célebre ensaio de Sérgio Buarque de Holanda ‒ a nossa história não tem nos apresentado, com a frequência que deveria, a figura do líder político de fácil comunicação com as massas sob um perfil que se ajustaria melhor ao nosso modo de ser e temperamento.  

No mais das vezes, as nossas elites do poder não nos facultaram esta possibilidade e, via de regra, permitiram apenas a prevalência do político amorfo e cinzento, sem qualquer peculiaridade de relevo, naturalmente muito mais propenso a agir de forma cordata e condescendente diante das exigências das oligarquias que há mais de cinco séculos regem os cordéis da nossa economia e influenciam os corações e mentes da nação.  

Não tendo tido em nossa história nem uma única oportunidade de eleger um presidente comprometido com posições de esquerda, raras vezes tivemos sequer o gosto de poder conviver com um político no mais alto posto da República que exibisse uma personalidade rica e colorida, que mantivesse um diálogo espontâneo com a população e demonstrasse enfim uma aura de humanidade que fosse um pouco além da pompa enfatuada do poder.  

Tendo sucedido exatamente uma destas raras personalidades, esperava-se que a atual president(a) pudesse ao menos absorver algumas das características do seu protetor. Supunha-se, é claro, que ungida pelo poder que seu antecessor lhe transferia tivesse ao menos a humildade que querer incorporar o estilo de governar e dialogar que tornou o seu padrinho tão popular. 

Lamentavelmente, a nossa atual dirigente não vem demonstrando nenhuma vocação para o contato com as massas populares, preferindo a calma aparente dos escritórios onde pode melhor conceber o conceito de administração que considera mais adequado ao país, procedimento que não difere em absoluto do modelo que a velha oligarquia nos impingiu durante todo o século passado. 

Seu estilo pesado, que se estende ao modo frio e seco de falar, à absoluta ausência de qualquer carisma ou encanto em sua personalidade, vem marcando os mais de 1000 dias de sua administração onde não se encontra nem um traço marcante, um detalhe próprio ou específico, um aspecto humano que a diferencie dos melhores ou piores governos que já tivemos, algo que enfim traga uma característica significativa da nossa president(a). 

Pensando melhor, talvez haja de fato esta marca mas ela não parece muito lisonjeira para sua criadora, ou seja, muitos consideram que a introdução do termo presidenta – em substituição a uma acepção que sempre designou a atividade de ambos os gêneros – tem um claro sabor grotesco, restritivo e autoritário. 

O autoritarismo, aliás, tem se evidenciado como umas das marcas do seu governo mas, paradoxalmente, não é exercido contra os setores poderosos da sociedade que a criticam e chegam até mesmo a conspirar contra sua administração. Em relação a estes, Dilma Vana Rousseff tem se mostrado cordata e condescendente, concedendo-lhes generosos favores e frequentando seus momentosos encontros patronais. 

Embora muitos tenham se surpreendido com seu comportamento político conservador, para o líder sindical Ivan Pinheiro, candidato do Partido Comunista Brasileiro à presidência da República em 2010, sua conduta não deve se constituir em nenhuma novidade já que previa então que, na hipótese de eleita, sua administração seria "um governo mais à direita, um governo do capital". 

Desgraçadamente, a previsão de Ivan Pinheiro vai se confirmando, assim como um outro prognóstico de seus opositores, a de que teríamos um tipo de administração paternalista e assistencialista ao estilo de Eva Perón, personagem histórica ligada ao movimento do peronismo, ocorrido na Argentina na década de 50 do século passado. 

É claro que faltam à nossa president(a) o talento dramático e o carisma da esposa de Juan Domingo Perón mas Dilma tem procurado compensar suas deficiências com uma pletora de pequenos programas dirigidos aos mais pobres, na verdade verdadeiras merrecas, ou simples esmolas, quando comparadas aos bilhões que dispensa aos empreiteiros nacionais e estrangeiros, abrindo as portas do país para a mão de obra e o capital que vem de fora, o que certamente tem agradado imensamente os antigos opositores e reforçado os laços com seus patrocinadores na eleição de 2010. 

E como é “dando que se recebe”, segundo a ética da classe política deste país, a figura da nossa president(a) vai se tornando cada vez mais palatável até para os meios de comunicação e as elites econômicas, cada vez mais satisfeitos com as concessões e privatizações – aeroportos, entrega do pré-sal ‒ que Dilma vem realizando. 

Muitos estudos já foram elaborados sobre o autoritarismo e certamente uma das conclusões a que se chegou é que este se constitui em um sintoma de insegurança. Neste sentido, a insegurança da nossa gerent(a) tem se mostrado de forma muito mais acentuada em relação aos grandes e poderosos do que quanto aos pequenos e desprotegidos, evidenciando seu crescente compromisso com os empresários – com alguns sendo guindados inclusive à condição de guias e mentores –, suas alianças cada vez mais à direita e sua recusa verdadeiramente esquizofrênica em dialogar com os indígenas e tratar da crucial questão da terra, camuflando-os com programas e palavras de efeito. 

De outra parte, muitas análises também já foram feitas sobre as mais diferentes personalidades políticas. Sigmund Freud, o criador da psicanálise, considerou certa vez que a história da humanidade é muito mais determinada pelo inconsciente do que pelo consciente dos seus protagonistas. Percorrendo a trajetória do ser humano na perspectiva de um voo de pássaro, podemos observar que muitas personalidades políticas começaram suas carreiras em posições que poderiam ser consideradas de extrema esquerda e a concluíram abraçando ideais claramente fascistas. Este ainda não é o caso da nossa president(a) mas certamente seu ideário neoliberal já está hoje muito longe dos compromissos que assumiu como militante da esquerda clandestina nos anos 1960 e 1970. 

Dadas as características do seu modo de governar, suas atitudes comportam uma análise tanto sob o ângulo político quanto psicológico e algumas inferências podem ser anunciadas. Sob o aspecto político, seu governo – marcado pela incompetência administrativa de sua equipe, pela pouca ou nenhuma sensibilidade de sua política econômica diante das necessidades dos menos favorecidos e pelo conservadorismo político de seus aliados Michel Temer, Jorge Gerdau, et caterva – é indicativo do rotundo fracasso que envolve a esquerda atual e sua incapacidade de propor novas soluções para a crise que envolve o capitalismo. 

Vistas sob o ângulo psicológico, as atitudes que Dilma Rousseff vem tomando revelam um outro lado de sua personalidade e sugerem que seu compromisso político e ideológico com a transformação da sociedade não era na verdade muito profundo, seu ideal não acalentava uma revolução socialista mas apenas o aprimoramento da velha ordem corrupta do capitalismo para um estado de bem-estar onde as tensões sociais fossem levemente atenuadas. 

Na verdade, é isto o que o seu governo vem tentando realizar: enquanto concede migalhas para os programas de segurança social, distribui bilhões para banqueiros, empreiteiros corruptos cadastrados no PAC, obras superfaturadas programadas para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, repetindo assim os mesmos procedimentos vergonhosos que marcaram a história deste país, emoldurados naturalmente por slogans de apelo fácil como “governar é construir estradas”, “exportar é o que importa”, e que nada mais representam do que o velho autoritarismo que é a marca das administrações públicas brasileiras. 

Diante de sua clara guinada para a direita, não surpreende que a nossa president(a) procure agora setores ligados a esta tendência para o seu projeto de reeleição. Se efetivamente caminhar ainda mais neste sentido, terá um longo e árduo trajeto pela frente além de também ser obrigada a se confrontar com seu aliado de outrora, o inefável Eduardo “Campriles”, que prepara seu bote para a primeira oportunidade que surgir. 

Será também obrigada a prestar contas sobre as pequenas realizações sociais de seu governo assim como acerca da falta de um projeto de reforma agrária, que faz com que 84% da população abarrote as cidades cada vez mais favelizadas, levando à crescente violência urbana – aí também incluída a atuação da polícia –, à permanência de uma vergonhosa distribuição de renda e de concentração de poder econômico num país que gera tanta riqueza, e também sobre a inoperância das agências reguladoras para controlar a ação predatória dos oligopólios, a devastadora destruição do meio ambiente ao revés da atuação das autoridades competentes, as polêmicas hidroelétricas em consórcio com o capital estrangeiro para a tomada da Amazônia, as contínuas delinquências perpetradas diariamente pelos meios de comunicação sem que haja qualquer esforço do governo para a sua restrição ou controle, o retorno das privatizações que somente vão enriquecer alguns poucos, o baixo crescimento econômico, as persistentes greves em decorrência dos baixos salários, além de muitas outras graves questões sobre as quais seu governo pouco ou nada tem feito. Para enfrentar todos esses graves e históricos problemas seria preciso um desejo real de mudança e um compromisso com as classes populares – os verdadeiros trabalhadores – e não apenas um projeto de governo baseado em tocar obras e criar programas assistenciais. 

Termina seu governo de forma melancólica, em meio aos protestos contra uma Copa do Mundo que não mobiliza a população e que se escandaliza diante de tantos gastos inócuos e a crescente militarização de seu governo, hoje protegido das manifestações populares pelo Exército, a Força Nacional, a polícia civil e militar e até por um estranho acordo de cooperação com o Federal Bureau of Investigation (FBI) americano. 

Para seu projeto de reeleição, Dilma vai ter que contar ‒ como há quatro anos ‒ com o apoio cerrado de seu padrinho, na esperança de que os brasileiros venham a endossar novamente este cheque em branco sem substância. 

“Diplomado em matéria de sofrer”, como confessava o compositor baiano Batatinha em uma canção popular do passado, o povo brasileiro talvez não venha a ter no futuro uma lembrança tão positiva do governo Dilma como apregoam os instrumentos de pesquisa dos dias de hoje. 

                                                 

Sérvulo Siqueira