3 de julho de 2009
 


Para os outros, revoluções coloridas; na América Latina, os golpes fascistas de sempre

 

Subitamente, situações vividas em um passado não muito distante reapareceram na história do nosso continente. Um presidente constitucional de uma pequena e pobre nação da América Central é capturado por um grupo de homens encapuzados vestindo uniforme militar e levado para um país vizinho. Com algumas pequenas diferenças de detalhe, esta foi uma situação muito familiar vivenciada pelos cidadãos da América Latina nos anos 1960 e 1970.
 

No caso de Honduras, ocorrido no último dia 28 de junho, um domingo escolhido para a data de uma sondagem destinada a conhecer a opinião dos cidadãos do país sobre a possibilidade de instalação de uma futura Assembléia Nacional Constituinte, o fato representou a destituição do presidente Manuel Zelaya, o corte de fornecimento de energia elétrica e de telefone, a interrupção da transmissão de estações de rádio e televisão, o sequestro de pelo menos uma ministra de Estado e alguns embaixadores e a exibição de cenas que – não tivesse o acontecimento o potencial dramático de envolver o risco de vidas humanas – conteriam as peculiaridades de uma verdadeira ópera bufa.
 

Os conspiradores – políticos e militares de direita que não revelaram seus nomes ou rostos – fabricaram então uma carta de renúncia do presidente, o que forneceria a oportunidade para colocar no cargo justamente o presidente do Congresso Nacional. Como o presidente da República negou com veemência sua renúncia, tornou-se necessário produzir rapidamente uma outra justificativa para o golpe. Decidiu-se então concluir às pressas o juízo político do presidente e afastá-lo do cargo sob o argumento de que o mandatário havia violado dispositivos constitucionais, o que deu ao episódio as características de um golpe institucional de Estado, fazendo-nos retornar abruptamente aos sombrios tempos dos anos 60 e 70, quando todo o mapa político da região foi alterado pela derrubada de governos eleitos e a instalação de ditaduras militares.
 

Desde o putsch contra o presidente da Venezuela Hugo Chávez, em 11 de abril de 2002, a América Latina não experimentava o espectro dos golpes militares ou de suas variações típicas no continente: as quarteladas, os pronunciamientos, as trocas de guarda palacianas, etc. O episódio trouxe de volta as prisões políticas ilegais, a restrição à liberdade de expressão e a violência, e compreendeu inclusive o sequestro do próprio presidente, levado num avião militar para a vizinha Costa Rica.
 

Os Estados Unidos da América, profundamente mergulhados numa crise econômica sem precedente, jamais se descuidaram de seus interesses pelo mundo afora mas estão no momento diretamente empenhados na desestabilização do Irã, onde pressionam por uma mudança de regime. No entanto, apesar de informado sobre o possível golpe em Honduras – conforme relatou o jornal The New York Times – o país não exerceu nenhuma pressão para que fosse abortado, colocando-se assim em uma situação delicada já que, ao mesmo tempo em que via com simpatia a retirada do poder de um aliado de Chávez, obrigava-se – pelas posturas que vem adotando em relação ao Irã – a se pautar pelo respeito à legalidade constitucional e à ordem democrática representadas por Manuel Zelaya. Adotou então o padrão clássico enunciado por Teddy Roosevelt: Seja gentil mas carregue um grande porrete; enquanto, de um lado, a diplomacia americana afirmava apoiar o retorno do presidente deposto, de outra parte referendava e dialogava com os aliados no país – entre eles, altos chefes das forças armadas que estudaram na nefanda Escola das Américas – e os pressionava a restaurar o estado de direito com a rápida realização de eleições. Com isso, os gringos buscam enfraquecer a força do apoio popular de Zelaya e levar o governo de opereta de Micheletti a entregar o poder a um representante da oligarquia fascista, após novas e cuidadosamente planejadas eleições, onde o resultado que não favorecer a vitória do candidato previamente escolhido, será certamente considerado uma fraude.
 

Até o momento, sabe-se muito pouco sobre as circunstâncias da preparação do golpe mas – segundo investigadores desse tipo de operação como a venezuelana Eva Golinger – dois funcionários do governo americano estariam diretamente envolvidos no processo. Um deles é o notório Otto Reich, cubano de nascimento e descendente de alemães que desde os anos 60 vem atuando a serviço dos Estados Unidos na desestabilização de governos legítimos da América Latina, tendo inclusive participado do golpe contra Chávez, e ocupa atualmente o posto de diretor da famigerada Escola das Américas, onde são planejados os golpes executados em quase todos os países da América Latina.
 

Outro provável protagonista do golpe – já que há muito tempo grande parte do quadro diplomático dos EUA é composta por funcionários treinados pela CIA – é o atual embaixador americano em Tegucigalpa, Hugo Llorens, antigo diretor para a Região Andina do governo de George W. Bushinho e durante algum tempo considerado o principal conselheiro da administração anterior para a Colômbia, Venezuela, Bolívia, Peru e Equador.
 

Entre os golpistas de Honduras, estima-se que o principal articulador deve ser o general Romeo Vasquez, demitido pelo presidente da função de comandante do Exército poucos dias antes do putsch e, assim como o atual comandante da Aeronáutica, Luís Javier Prince Suazo, um ex-aluno das Escolas das Américas. Ao lado desses personagens, perfila-se também o ex-presidente Policarpo Paz Garcia (1980-1982), criador do Batalión 3-16, um dos mais temidos esquadrões da morte de que se tem notícia na história da América Latina. Segundo a jornalista Eva Golinger, todas essas pessoas têm claras ligações com o governo dos Estados Unidos, a quem prestaram relevantes serviços, especialmente durante o período da guerra suja contra o sandinismo nos anos 80.
 

Ao longo de sua história, Honduras – um país da América Central com pouco mais de 110 mil km² e uma população composta por mais de 90% de mestiços – tem se prestado a todos os propósitos dos Estados Unidos, desde o uso econômico das plantações de banana e café, as guerras coloniais para a derrubada dos governos da Guatemala, em 1954, de Cuba, nos anos 60 e da Nicarágua, na década de 80, a instalação de bases militares e até mesmo a exploração turística das ruínas maias de Copán e das ilhas de la Bahía, no Caribe. Com uma economia quase que inteiramente dependente do Tio Sam, as poucas tentativas de mudança desta situação foram sempre respondidas por golpes militares ou expedições punitivas, como a enviada pelo presidente americano William Taft ao país em 1912 com o objetivo de proteger os interesses da United Fruit na produção de banana.
 

Sua posição geográfica, banhada pelo Atlântico e o Pacífico e situada na metade do istmo da América Central lhe confere uma situação estratégica privilegiada que desperta a cobiça dos ambiciosos, especialmente dos gringos ao norte, em seu desejo de domínio sobre toda a América.
 

Desgraçadamente, no entanto, todo este cenário não se traduz em bem-estar e riqueza para 70% de sua população de 7,5 milhões de habitantes, que vive abaixo da linha da pobreza com menos de um dólar por dia. Mais uma vez se repete aqui o que dizia Eduardo Galeano em As Veias Abertas da América Latina: “a pobreza do homem é o resultado da riqueza da terra”.
 

Quando no último dia 28 de junho, um bando de gorilas derrubou um presidente eleito no dia de uma consulta popular sobre a possibilidade de uma nova constituição, o país viu reincidir a situação a que os hondurenhos já haviam se habituado no século passado. Embora tenham justificado sua ação como uma resposta à quebra da ordem legal do Estado, sabe-se que o que ocorreu foi na verdade um gesto desesperado da velha oligarquia, descontente por ver seus interesses contrariados com a entrada do país na ALBA, organização de livre comércio que busca uma alternativa à ALCA, vista por muitas nações como uma ameaça às muitas pequenas economias regionais do continente.
 

José Manuel Zelaya Rosales, um próspero fazendeiro eleito em 2005 com um programa conservador, afirma que progressivamente foi percebendo que se contasse apenas com os empréstimos em conta-gotas do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento – além de outros organismos multilaterais da metrópole – jamais alavancaria um verdadeiro desenvolvimento social e econômico. Sabendo que seu país foi visto durante a maior parte do século passado sucessivamente como uma banana republic ou um porta-aviões dos Estados Unidos para a derrubada dos sandinistas da Nicarágua, Zelaya começou a perceber que somente um rompimento com a velha oligarquia clientelizada de Washington poderia levar a uma ampla distribuição de riqueza, maior geração de empregos e melhor remuneração da força de trabalho. Uma de suas decisões de maior impacto foi o aumento do salário mínimo em 60%. Essa medida terminou por instigar a velha oligarquia do país à conspiração que encontrou na consulta popular de 28 de junho deste ano o pretexto para o golpe.
 

Uma manifestante em favor de Zelaya nas ruas de Tegucigalpa, a universitária Alejandra Fernandez de 23 anos, resumiu assim as razões do apoio popular ao presidente deposto:
 

Ele aumentou o salário mínimo, criou programas que proporcionam alimentação gratuita nas escolas, leite para as crianças e pensões para os mais velhos, distribuiu lâmpadas que economizam energia, diminuiu o preço dos transportes públicos e concedeu mais bolsas escolares para os estudantes.
 

Tendo se defrontado com uma reação da comunidade internacional poucas vezes vista nos últimos tempos: condenação de 193 países na Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) convocada pelo seu presidente Miguel D’Escoto, rejeição unânime de todos os países membros da Organização dos Estados Americanos, o regime presidido por Roberto Micheletti – desde o início já apelidado de Goriletti e Pinocheletti – tende a se isolar cada vez mais interna e externamente e demonstra o seu notório perfil fascista ao estabelecer um toque de recolher e abolir as garantias e direitos individuais, provavelmente para possibilitar a ação criminosa de grupos paramilitares na caça aos partidários de Zelaya.
 

Até o próximo domingo, quando o ex-presidente programou o seu retorno ao país, o regime fascista de Micheletti espera completar a sua razzia contra as organizações sindicais de trabalhadores, professores e camponeses, que preparam grandes manifestações para receber o presidente deposto, e caso não consiga impedir a volta de Manuel Zelaya ao poder, ambiciona ao menos inviabilizar politicamente os últimos meses de seu mandato.
 

Com menos de uma semana de golpe, algumas ilações podem ser feitas do acontecimento, muitas delas apontando para o total descrédito de algumas instituições de Honduras e dando razão ao propósito de Zelaya de propor uma nova carta constitucional para o país. Mais uma vez se confirma o papel dos meios corporativos de comunicação como um ente desprovido de escrúpulos e cada vez mais distantes de sua função social de informar com liberdade e isenção. Os meios de informação de Honduras, propriedade de setores poderosos que se opõem aos interesses da população, têm se utilizado de jornais, rádios e televisões para convocar manifestações em defesa do governo fantoche de Micheletti, ao mesmo tempo em que silenciam sobre as prisões de jornalistas, intelectuais e artistas independentes. A notória Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que não deixa um só instante de denunciar a falta de liberdade de imprensa em Cuba e na Venezuela, por exemplo, não emitiu um só comunicado sobre o fechamento de órgãos de comunicação em Honduras e o apagão de domingo, na sombra do qual emergiu soturnamente o golpe de Estado.
 

No Brasil, onde os meios de comunicação são – como dizia o ex-governador Leonel Brizola – um partido único, chamou a atenção o silêncio de alguns órgãos como a Band News e o site do UOL da Folha de S.Paulo, que pareciam aguardar uma palavra do seus senhores sobre o que dizer acerca do ocorrido: golpe ou transição constitucional legal. Somente no meio da noite de domingo, decorridos mais de doze horas do sequestro de Zelaya e após a manifestação do governo americano, foi que apareceu a primeira notícia do fato nesses órgãos. Quase toda a grande imprensa brasileira se comportou como o célebre cachorrinho da RCA Victor, uma empresa muito famosa nos anos 50, cujo latido é “a voz do dono”, conforme dizia a propaganda de então. No plano internacional, confirma-se o descrédito da rede CNN que – ao invés de se tornar um meio de comunicação em língua espanhola para todo o continente – se mostra claramente como um braço da propaganda e dos propósitos dominadores dos Estados Unidos pela cobertura distorcida e tendenciosa que expõe dos acontecimentos: ao mesmo tempo em que caracteriza o governo do Irã como uma ditadura, omite criminosamente dados sobre violações de direitos humanos em países considerados amigos como Israel, ou subservientes como o atual regime de Honduras. Desta vez, no entanto, a cadeia americana teve que se confrontar com a Telesur da Venezuela, que apresentou com muito mais imparcialidade, objetividade e até mesmo coragem os acontecimentos de Honduras.
 

Pelas reações que produziu – de forma rápida e organizada – o episódio mostra que começa agora a emergir, ainda que de forma embrionária, uma incipiente voz latino-americana contrapondo-se ao poder norte-americano que regeu este continente durante mais de cem anos.
 

Neste momento, think tanks americanos, conselheiros de plantão com chicanas jurídicas e estrategistas de guerra de baixa intensidade tramam saídas para a crise que preservem os interesses americanos na região e institucionalizem o golpe como fato consumado, tais como a criação de um plebiscito para referendar o presidente no cargo, o perdão dos crimes cometidos pelos gorilas etc. É preciso estar atento para que esta página trágica e grotesca da história de nosso continente não se transforme em mais um banho de sangue e leve ao retorno dos tempos sombrios, nem crie um precedente perigoso que impeça a evolução do nosso continente em direção a sua emancipação diante dos opressores.
 

Depois da derrota francesa de Dien Bien Phu em 1954, Ho Chi Minh não aceitou participar da Convenção de Genebra para decidir a partilha da Indochina e declarou:
 

Não irei negociar numa mesa de escritório o que foi conquistado por meio da luta do nosso povo. Se eu quero os fins eu também quero os meios compatíveis com esses fins.
 

A história mostrou que tinha razão.  

 

Sérvulo Siqueira