Os Anos JK

Os Anos JK: De Getúlio a Juscelino, o Brasil no Cinema

 

OS ANOS JK

Direção

Silvio Tendler

Fotografia: Lúcio Kodato

Montagem: Gilberto Santeiro, Francisco Moreira

Música: Caique Botkay

Narração: Othon Bastos

Distribuição: Embrafilme

35 mm, Cor e Preto e Branco 1979

 

Os Anos JK – Uma Trajetória Política, primeiro longa-metragem de Silvio Tendler, satisfaz de um lado a necessária e quase vital fome de imagens que temos de nosso passado, recuperando um segmento da história brasileira e, de outro lado, procura trazer de forma às vezes didática um espírito de conciliação política que acredita ser útil nos nossos dias. E, como se houvesse uma linha que o ligasse aos seus similares antecessores Getúlio Vargas de Ana Carolina e O Mundo em que Getúlio Viveu de Jorge Ileli, assume a linguagem da personalidade que escolheu como objeto de análise, embora isso se faça a partir de uma perspectiva crítica nem sempre justa dos acontecimentos.

Dirigindo-se aos mais jovens, segundo palavras dos seus realizadores, esses filmes pretendem dar àqueles que não viveram uma época da nossa história a medida de emoção que os livros nem sempre preservam, por meio da magia das imagens recuperadas ao tempo.  É por isso que a sua posição diante dos fatos não pode ser fria ou neutra, eles terminam sendo como que contagiados pela força das imagens e de seu fascínio e o tempo redescoberto resulta ainda mais intenso do que se tivesse sido efetivamente vivido. No Brasil, onde a memória é permanentemente escamoteada, toda tentativa de recuperação de um segmento de nosso acervo histórico transforma-se numa aventura quase épica, o que contagia não apenas a disposição daqueles que dela participam como acaba se incorporando ao seu próprio discurso. Daí porque nem mesmo a suposta objetividade factual que Jorge Ileli inscreve como epígrafe de seu filme escapa à adesão do cineasta ao político, que é visto amavelmente como estadista e um homem que soube interpretar o seu tempo. Num caminho diverso e professando uma adesão ainda maior ao seu personagem, o mesmo Getúlio Vargas, Ana Carolina enfatiza o seu compromisso político com os mais pobres, os obstáculos que lhe foram opostos e a grandeza histórica do seu gesto de sacrifício pessoal.

É claro que essas posições refletem também além do envolvimento pessoal dos diretores com seu personagem uma tomada de posição ainda mais ampla, num momento da vida política brasileira em que as lideranças se encontravam completamente ofuscadas. Retomar uma figura morta há vinte anos, que emergiu da República Velha para se tornar por mais de duas décadas a mais importante personalidade da nossa vida pública, implicava também um projeto para o futuro: o sacrifício de Vargas interrompeu um processo político do qual sua Carta-Testamento ainda continua sendo o programa mais claro e contundente. Ana Carolina e Jorge Ileli acreditavam então estarem propondo a continuação de um debate que embora tivesse sido suspenso não está de maneira alguma encerrado.

No nível da linguagem do cinema e correspondendo a um contexto político mais abrangente, este debate continua agora com Os Anos JK, não mais segundo a perspectiva do populismo gaúcho e trabalhista de Getúlio, mas sob a ótica do populismo mineiro e pessedista de Juscelino, que o sucedeu como presidente e líder. JK não deixa um testamento político explícito sua morte foi inesperada e o colheu num momento em que ele próprio se acreditava com possibilidades de voltar à vida pública mas lega uma imagem bastante contemporânea: a de um Brasil moderno que ele ufanisticamente ajudou a forjar no curso de seu exercício presidencial. Uma das características dessa imagem se traduz na persistência e continuidade da política de conciliação que certamente ficará como a marca do estilo pessedista, tema que o filme de Silvio Tendler assume em um dos seus desdobramentos: a anistia aos sublevados. Nesse momento, Os Anos JK deixa de ser um fenômeno especificamente cinematográfico, bastante meritório por sinal, já que realiza a irrefutável vocação do cinema ao recuperar e/ou preservar o tempo e demonstra respeito ao som e à imagem para se colocar no curso da nossa história, trazendo do passado, senão um programa, ao menos um estilo que possa servir de modelo para a política de abertura que está sendo posta em prática.

No entanto, essas proposições não poderiam ser meramente discursivas. Elas necessitam da força das imagens sem as quais se transformariam em simples retórica: é assim que esse estilo pode se manifestar através daquele que lhe deu a sua forma mais aprimorada: o fenômeno JK. A princípio, nós não vemos o personagem principal do filme, que começa com a promulgação da Constituição de 46, mas aos poucos aparecerá a figura do prefeito de Belo Horizonte que não hesitou em chamar dois comunistas para trabalhar na construção da Pampulha e transformou o projeto em plataforma para chegar ao governo do Estado de Minas Gerais. Terá sido um simples ato de carreirismo? Ou estamos diante do carisma de um verdadeiro líder político? Sabemos hoje que a escalada não pára no Palácio da Liberdade, sede do Governo mineiro. Ela se dirigirá rumo ao Catete e, apesar de golpes e contragolpes, chegará à Presidência. Será preciso a intervenção de um Ministro da Guerra de pulso forte, o general Lott, que irá evitar a mudança do quadro institucional com o contra-golpe de novembro de 1955. Diante de poderosas forças políticas de oposição, JK lança mão do seu repertório forjado no aprendizado com Benedito Valadares, velho cacique mineiro, e com o próprio Getúlio. Seu estilo de pregação será o programa de uma verdadeira união nacional em torno de uma ideologia desenvolvimentista que promete fazer o Brasil saltar cinqüenta anos em apenas cinco anos de Governo.

Para consolidar este futuro, JK promete a construção de uma nova capital, que será erguida no coração do país. E, assim como a construção da Pampulha mudou a face da capital mineira, Juscelino acredita que Brasília mudará a face do Brasil. Oscar Niemeyer é novamente convocado para, por meio de suas linhas revolucionárias de arquitetura, projetar a nova capital como símbolo de uma nova nação. Seria essa posição de JK apenas a demonstração da predominância de velhos ranços regionalistas? Ou estaria aí contida uma proposta de messianismo de face nacional e institucional? Ê certo que o clima juscelinista de governo, ditado pelo seu comportamento político grandiloqüente e ao mesmo tempo descontraído, será marcado pela euforia, um verdadeiro porre como lembra um depoente mas sempre identificado com um estilo de brasilidade, que é a verdadeira condição de seu populismo.

Na trilha desta trajetória, Silvio Tendler se serve de um repositório de imagens que nossos olhos se desabituaram a ver: cenas de antigos jornais de atualidades mostrando políticos em cenas de inaugurações, visitas diversas, comícios etc., que foram sendo eliminadas das salas dos cinemas desde que as vaias começaram a se tornar muito incômodas, e hoje preenchem as telas dos aparelhos dos nossos televisores. Essas imagens terminam por provocar um sentimento de ironia porque apesar do constante solapamento de nossa memória e do progressivo esquecimento de nossa identidade decorrente da negação do nosso passado, somos forçados a constatar que os protagonistas de nossa cena política são praticamente os mesmos há três décadas. Ao longo dos jornais de atualidades, desfilam rostos muito familiares, que podem ser perfeitamente entrevistos por trás da máscara que o tempo constrói. Apesar das sucessivas reviravoltas de nossa política principalmente até 1964 reconhecemos que as ideologias em luta pelo poder não apenas continuam as mesmas como seus representantes com raras exceções ainda permanecem no velho palco de nossa cena institucional. De Tancredo Neves ao general Ernesto Geisel, passando por Afonso Arinos, Jurandir Bizarria Mamede e Mourão Filho para citarmos somente alguns o filme mostra como inúmeras personalidades participaram do nosso drama político, algumas vezes começando como figurantes e passando a atores secundários, para terminarem como estrelas máximas, prima-donas de nossa ópera política. Curiosamente, ao longo da trajetória política de Juscelino Kubitschek desfilam vários personagens que serão elevados do ostracismo ao primeiro plano. O filme de Silvio Tendler sacia então um pouco a nossa fome e sede de imagens, arrancando-as à imobilidade museológica onde, propositalmente ou não, elas tinham sido confinadas. Para isso, foi certamente necessário um trabalho de paciência e tenacidade que se estendeu por mais de três anos, o que pode lhe ter sido prejudicial e tê-lo frustrado em um dos seus melhores e mais explícitos objetivos: sua proposta política.

A documentação de que Os Anos JK se serve nem sempre é vasta e uniforme e procura centrar-se na figura do político que escolheu como objeto de análise. Deixa, portanto, algumas lacunas na abordagem do processo histórico e social em que JK atuou como presidente, especialmente na visão das questões operárias e da reforma agrária, que não são tratadas como deveriam. No entanto, detendo-se mais sobre o caráter político da personalidade de Juscelino, o trabalho de Silvio Tendler extrai o estilo básico de seu comportamento: o espírito de conciliação política, a capacidade de amenizar conflitos partidários, diluir tensões sociais, fazer concessões, conceder perdões e, sobretudo, de manter viva através de um constante otimismo a chama da ideologia do desenvolvimentismo e o carisma de seu condutor. Enfatizando o viés carismático de seu discurso, fazendo confluir para a personalidade magnética do seu biografado o processo político brasileiro, o diretor prolonga o debate posto nas telas pelos filmes de Ana Carolina e Jorge Ileli e ao herói sacrificado de Getúlio Vargas e O Mundo em que Getúlio Viveu, personalista, autoritário, paternal e que tarde descobre o jogo multinacional de interesses que o envolve, propõe o político ardiloso isto não quer dizer que Getúlio o era menos - de formação tipicamente urbana – no que se contrapõe a Getúlio, um produto da aristocracia rural gaúcha e de espírito mais formalmente democrático, possuidor de um incrível talento para conseguir seus objetivos através da persuasão, características que compartilhava com o autoritário Getúlio. Uma simples mudança de estilo, talvez? Não apenas isso, por certo já que Juscelino procurará recolocar o Brasil no caminho dos países ocidentais capitalistas o que nem sempre pareceu claro no período getulista mas seu mérito reside no fato de que soube conduzir seu governo num clima de maior abertura política, onde não faltou até mesmo uma ampla, geral e irrestrita anistia política aos participantes dos movimentos direitistas de Aragarças e Jacareacanga.

Esse claro gesto de conciliação, sinal de um espírito livre de rancores para com os adversários, constitui o legado juscelinista para o atual momento brasileiro e essa seria certamente não fosse o atraso no lançamento - a bandeira com a qual o filme, e por extensão o próprio cinema brasileiro, estaria participando do processo de distensão política que está em curso. Assim como o filme Getúlio Vargas, à época do seu lançamento em 1974, procurava recolocar a atualidade da Carta-Testamento, recordando a permanência dos mesmos problemas e a constante necessidade da luta pela integridade nacional denunciados no documento, e o fazia num instante de intensa desnacionalização da nossa economia, Os Anos JK Uma Trajetória Política traz dos arquivos quase esquecidos e mal conservados do nosso passado a imagem de um dirigente conservador no plano social, excessivamente aberto ao capital estrangeiro no plano econômico, mas que atuava no campo político de forma democrática, a ponto de ter conseguido passar este sentimento a todo um país durante os cinco anos de seu período. Mesmo não tendo chegado no momento do debate em que sua participação teria sido mais oportuna, o filme de Silvio Tendler retoma a importância às vezes esquecida do cinema como veículo de discussão dos problemas do nosso país. Num plano mais particular, sabemos que houve um quase desaparecimento do cinema de debate mais especificamente político em anos passados, mas a existência de um filme como Os Anos JK lembra, com insistência quase hipnótica, o poder irrefutável das suas imagens arrancadas ao rio do tempo de Heráclito, onde não nos banharemos duas vezes, mas que servem para nos mostrar o que fomos e como somos, no palco onde desfilam algumas das contínuas expectativas do povo brasileiro e os persistentes interesses dos mais fortes.

A força dessas imagens que devemos preservar cada vez mais com atenção e carinho não tem apenas um valor para historiadores, sociólogos, jornalistas ou quaisquer outros eventuais interessados, mas são como que uma fenomenologia do nosso modo de ser. Uma vez, numa conversa, Nelson Rodrigues falava, com aquela sua linguagem peculiar, que "no cinema, depois de dez anos, tudo fica perto do delito atroz: o sorriso do bandido, toda a gesticulação". E observava:

– É uma coisa muito espantosa. E a gente pensa: nós não somos assim. Mas, realmente, nós somos assim.

As imagens do nosso passado, que freqüentemente descobrimos como coisa nunca vista, permitem, como lembrou Nelson Rodrigues, olharmo-nos de frente como se estivéssemos num espelho. Mas, se elas representam um precioso acervo para o nosso conhecimento histórico, trazem também o incrível encanto do detalhe, aquele "sorriso do bandido" de que falou o escritor, o flagrante que faz a delícia do fotógrafo, o momento em que a pessoa cai e a câmara registra a reação em seu rosto. Anos de censura baniram de nossa visão essas imagens que estavam mais próximas da escala humana com a qual devemos julgar nossas figuras públicas. Recuperadas no filme de Silvio Tendler e na verdade elas são apenas uma parte de um acervo ainda inexplorado evidenciam precisamente a presença do cinegrafista como um olho atento aos acontecimentos de nossa história. Rendem, portanto, tributo ao homem da câmara que, como queria o inventor Dziga-Vertov, deve ser um agente da "decifração documental do mundo visível". Sem depreciar o valor do texto de Cláudio Bojunga, às vezes didático e com boa dose de ironia, embora soe freqüentemente como uma reescritura dos livros de Hélio Silva, o filme de Silvio Tendler recompõe - além da própria personalidade de JK e seu brilhante estilo político o valor das imagens de nosso passado. Voltando a Vertov: "nada de documentos-palavra, só cine-documento".

 

Sérvulo Siqueira

 

Publicada na revista Filme Cultura 37, Jan/Fev/Mar 1981