Intriga internacional

 

Intriga internacional

 

Em fins de 50, o crítico e teórico André Bazin escrevia que com Alfred Hitchcock "o cineasta é não apenas o concorrente do pintor e do dramaturgo, mas enfim o equivalente do romancista". "O repertório estilístico de um realizador como Hitch" – continuava este grande pensador do cinema moderno "se estende dos poderes do documento bruto às superimpressões e aos primeiríssimos planos".

Realizado na época da Guerra Fria e da crise do Muro de Berlim, North by northwest, aparentemente um thriller de espionagem e contra-espionagem, se dá conta dos acontecimentos, mas não se refere diretamente a esses episódios históricos. Eles permanecem como estruturas subjacentes ao seu discurso, como o pano de fundo de uma luta interna e surda. Deste processo participa, talvez um pouco como nas fábulas supostamente fantásticas mas rigorosamente lógicas de Franz Kafka, um cidadão americano de classe média e que hoje seria considerado como pertencente à "maioria silenciosa". Narrando como Roger Tornhill (Cary Grant), um publicitário assume a identidade de suposto agente de um organismo secreto americano, Intriga internacional comportaria certamente muitas leituras. Sem pretender esgotar esta pluralidade de interpretações tarefa impossível no espaço de um comentário seria útil situar o filme no tempo em que foi realizado e estabelecer as suas linhas básicas.

De início, o núcleo do filme poderia estar na duplicidade do seu discurso: o espaço exterior onde os fatos são objetivamente vividos (o cotidiano do personagem, sua relação com a mãe, evidenciados no filme, e com as ex-esposas, apenas referidas). De outra parte, o universo interior onde os acontecimentos são representados: a encarnação de Roger Tornhill como o agente George Kaplan, a verdadeira agente Eve Kendall (Eve Marie Saint) e seu duplo papel, as simulações, etc.

Neste clima de representação que realiza as funções simultâneas de integração e desintegração fazendo num momento sentir que estamos diante de um filme para logo nos envolver em sua trama, a narrativa opera o arsenal estilístico a que Bazin se referiu. O absurdo é, então, o pretexto para a articulação de uma atmosfera tão rigorosamente fantástica que pode se dissipar no instante seguinte.

Não faltam em "North by northwest" os elementos de humor que nos fazem lembrar que estamos diante de um autor inglês fazendo um thriller caracteristicamente americano. Certamente por isso, não sabemos quase nada de que tipo de espionagem se trata industrial ou política, por exemplo para quem Philip Vandamm (James Mason) trabalha, o que contém os microfilmes escondidos no ventre da estatueta, etc. Hitchcock não se envolve na "sopa de letrinhas FBI, CIA, NSA, qualquer uma delas", mas palavras do professor-agente (Leo G. Carrol).

Na verdade, o diretor e seu roteirista Ernest Lehman, também produtor executivo do filme,  parecem mais preocupados com os conflitos psicológicos do que com as circunstâncias políticas, e é neste ponto que este filme se integra ao conjunto da obra de Hitchcock, no seu discurso sobre o medo e a frustração. Paradoxalmente, é desta exclusão que vem a sua força de filme político, já que como um fantasma (um pouco como o inexistente George Kaplan), a sombra da guerra fria   com suas implicações de explosão nuclear e o muro de Berlim paira sinistramente sobre o cérebro do cidadão comum. Não é o medo que assalta o publicitário Tornhill mas o inesperado, o absurdo que como nas parábolas de Kafka se transforma em rigorosamente verdadeiro. A representação da desumanização da condição humana, em que um personagem é subitamente envolvido em uma trama à qual não pertence e cujas implicações desconhece passando a ser usado como um instrumento de conflito e poder durante todo o desenrolar dos acontecimentos estabelece a permanente atualidade desta obra.

 

Sérvulo Siqueira

 

P.S. Existem no Brasil, hoje, dois grandes laboratórios: o Revela, de São Paulo, e a Líder Cinematográfica, que está sediada há mais de 15 anos no Rio de Janeiro. Um deles certamente é o responsável pelo processamento da cópia de Intriga internacional que está sendo exibida no Cinema-2. Nela se vê que o céu está muitas vezes de cor verde, a iluminação lembra o expressionismo, viragens em azul aparecem com freqüência, circunstâncias que se não fossem de extremo mau gosto, representariam, talvez, uma "antropofágica" contribuição ao espírito da obra.

 

Matéria publicada no jornal O Globo em 14 de setembro de 1977