Inferno Carnal

 

Inferno Carnal

 

Muitos anos se passaram desde que o diabólico e sinistro Zé do Caixão desafiava as crenças do povo comendo carne à vista da procissão de Sexta-feira da Paixão. Ou se entregava à pratica dos crimes mais bárbaros em seu velho e soturno casarão do Brás. Hoje, travestido na pele do não menos diabólico porém consagrado cientista Jorge Medeiros, dedica-se à reservadas pesquisas sobre ácidos destruidores. O velho casarão, palco dos mais sádicos rituais, transformou-se numa burguesa vivenda com mordomo e belos e vastos jardins. E Zé do Caixão não mais procura a mulher que lhe dará o filho desejado; agora, o cientista Jorge, casado e sem filhos, se preocupa em vingar infidelidades conjugais.

Após os tributos prestados na Europa, quando o seu cinema pessoal e explosivo foi reconhecido no Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz, José Mojica Marins parece ter se recolhido a um acomodado desfrutar das parcas benesses que este respeito poderia lhe trazer na sua terra, depois de todos os percalços do começo, dos filmes proibidos, das dificuldades financeiras etc.

Sinal dos tempos ou o fim das ilusões? O certo é que o amadurecimento de Marins, ao lado da afirmação de um estilo de linguagem que — como reconhecem Glauber Rocha e Rogério Sganzerla — muito os influenciou, parece ter trazido também a perda do transbordante vigor dos seus primeiros tempos. E, junto com a sofisticação dos ambientes, o tempo também converteu os seus argumentos, como o deste Inferno Carnal, roteirizado por Rubens Luchetti, em intelectualizadas tramas, fenômeno que já podia ser observado no seu filme anterior, produzido pela Cinedistri.

Entretanto, persistem aqui e ali alguns dos mesmos tipos estranhos, enquanto suas mulheres continuam não sendo exatamente exemplares de beleza. E seu argumento consegue misturar, com certa arte o engenho, terror e sexo ao narrar com o mesmo percuciente materialismo uma história de deformações físicas com um desfecho que, se não chega a ser de todo imprevisível, ao menos se revela bem conduzido.

 

Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal O Globo em 27 de março de 1977