Coração de Cristal

Coração de Cristal

 

(Hers aus Glas), de Werner Herzog. Com Josef Bierbichier, Stefan Gut/er, Clemens Scheitz e Sonja Skiba. Cinemas Caruso e Tijuca-Palace, Rio

Ressaltando uma bela tonalidade azul, as imagens iniciais de Coração de Cristal, filme de Werner Herzog que entrou em cartaz semana passada no Rio de Janeiro, desvendam imensas nuvens se movendo sobre o Monte dos Gigantes. Elas representam um expressivo contraponto às antevisões de Hias (um profeta-pastor de ovelhas interpretado pelo ator Joseph Bierbiechler), que anunciam sombrios dias futuros para a humanidade. As paisagens de terras desabitadas, vertiginosos rochedos sobre o Báltico e florestas congeladas criam um espetáculo de princípio e final dos tempos, construído como a projeção cristalizada das visões do inconsciente de um visionário, cuja legenda  nasceu na Bavária do século XVIII.

O inconsciente é, na verdade, o centro da atenção de Herzog, tanto sobre o plano do discurso escatológico de Hias quanto ao processo utilizado pelo diretor alemão para extrair um desempenho original dos atores. Praticando a hipnose - sob o comando de um mestre de Munique e sendo ele mesmo um iniciado no métier -, Herzog desejou vincular a representação de atores, o povo, pessoas anônimas, donas-de-casa, velhos e desempregados à memória atávica do seu passado. Voltando ao passado para projetar o futuro, o filme tem no pastor e profeta do Apocalipse o seu epicentro, como a única consciência necessariamente possível - e portanto escatológica - num universo povoado pela inconsciência da loucura e pela decadência social.

Reunindo um conjunto de lendas que transcorrem no final do oitocentos alemão, Herzog certamente desejou muito mais do que representar uma metáfora do final dos tempos, profetizada por um místico que termina sendo devorado pela sua própria clarividência. Ele está com isso procurando encontrar uma fábula através da qual possa compor alguns dos elementos que representem o espírito alemão.

 

Sérvulo Siqueira

 

Crítica publicada na revista Istoé em 20 de dezembro de 1978.