Caçada Humana

 

Caçada Humana: De Colts & Winchesters

 

No princípio era o western. Paisagens imensas de pradarias, desertos e rochedos onde o homem branco cristão impõe sobre o índio pagão a nova ordem da técnica, do puritanismo e da religião, da qual é fiador. Nas cidades de madeira, amebas de uma futura civilização, se travam as lutas legendárias dos Cavaleiros da Justiça versus os defensores das Forças do Mal.

O western, observa Bazin, se aplica visualmente na utilização do travelling e da panorâmica, que restituem a plenitude do espaço, e no emprego dos grandes planos visuais de conjunto dos vastos horizontes, que lembram sempre a confrontação do Homem e da Natureza. Nas grandes batalhas livradas pela violência do mocinho a serviço do Bem contra a violência do bandido a serviço do Mal é que se evidencia, pela escala sobre-humana dos seus heróis e pela amplitude de suas proezas, a natureza épica do western.

Menos de um século depois a nova ordem do progresso está completamente implantada no Oeste americano. Na natureza – agora dominada pelo homem - os saloons de outrora foram substituídos pelas confortáveis lanchonetes da hoje, os aventureiros que ontem se lançavam à procura da ouro e prata são hoje os grandes capitalistas, proprietários de fantásticos poços de petróleo que dominam a paisagem do antigo deserto. A diligência e as estradas da ferro são coisas do passado, vivemos no tempo dos aerodinâmicos automóveis e dos aviões a jato.

Depois... veio The Chase. Arthur Penn – e sua roteirista Lílian Hellman - não fazem como Peckinpah, em Pistoleiros ao Entardecer, o necrológio do western, não se socorrem, como Ford em O homem que matou o facínora), no saudosismo do faroeste, nem se amparam nas muletas dos velhos Robert Mitchum e John Wayne, como Howard Hawks em Eldorado. Ao invés de refletir a realidade da decadência do gênero, Penn vai ao fundo do problema: não reflete o real mas busca o real deste reflexo. Vale dizer, revela, e este revelar é um desvelar, o que há de verdadeiro, de concreto por trás deste mero refletir. Na base do western, que se funde com as próprias raízes da civilização americana, está o culto da violência, antes a serviço do progresso, hoje instrumento de uma dominação exercida pelo próprio progresso.

O épico se fez trágico. A ordem social de ontem condicionou uma nova ordem moral de hoje, a sociedade que ontem retornava à ordem depois de eliminar o bandido, eterno inimigo da lei e do progresso, hoje - eliminando o bandido - não remove as causas das quais ele é um efeito. Veja-se a referência explícita à morte de Lee Oswald por meio da morte de Bubber Reaves, um elemento "incômodo" demais para ser mantido. O bandido de ontem é a vitima de hoje, a justiça de ontem é a injustiça de hoje.

A fuga de Bubber Reaves, precipitando o caos na aparente harmonia que envolvia a cidade, revela toda a sua fragilidade, a ordem precária do sistema. A figura simpática do antigo xerife do Oeste foi substituída por um xerife – interpretado por Marlon Brando - que nada mais é que um delegado do poder econômico, de cuja segurança ele é um guardião. E' verdade que este é ainda, no caos que desaba sobre a cidade, o personagem mais lúcido, o que possui consciência de sua servidão. No mais, nenhum outro personagem se salva, todos são bandidos ou ao menos coniventes com a estrutura da qual são integrantes.

O antigo bandido do Oeste, então oficializado pelo sistema, é hoje o bandido de Caçada Humana, agora oficializado no sistema. Bubber Reaves, assim como Lee Oswald, é o marginal, produto do white trash, escolhido para purgar os delitos da sociedade da qual é um simples resultado.

Arthur Penn não se serve mais dos grandes planos de conjunto que no faroeste evocavam as lutas da técnica do Homem contra a rudeza da Natureza; ele os aplica para revelar os grandes espaços, hoje ocupados pelo produto da maior técnica já empregada pela inteligência humana: o consumo convertido em sucata nas amplas tomadas do cemitério de automóveis. O deserto de ontem é hoje o repositório do desperdício fabricado pela riqueza. The Chase não é o western das diligências, das estradas de ferro guardadas por tropas federais, das cidades de madeira: The Chase é o western dos aviões a jato, dos skylines, das estruturas metálicas. Um western dos tempos modernos. Em apenas um caso, nenhuma diferença subsiste entre o velho e o novo: de Billy-The-Kid a Lee Harvey Oswald, James Earl Ray & Sirhan Bishara Sirhan, o Colt e a Winchester continuam a fazer reinar a sua ordem e sua ideologia.

 Sérvulo Peres Siqueira

Crítica publicada no Diário de São Paulo, em 3 de junho de 1969.