A Guerra dos Botões

 

A guerra dos botões

 

Dezessete anos após sua realização, La guerre des boutons permanece ainda como um épico infantil, a exaltação da liberdade da criança contra o auto-aprisionamento do adulto. No confronto real e simbólico entre os Longeverne e os Velran representa-se o instinto de sobrevivência, a natureza competitiva do homem e a história da humanidade com seu choque de ideologias, a economia, a linguagem, a guerra e suas táticas, as traições, o amor. Tudo isto é visto, no entanto, sob o ângulo mágico da criança - pivetes entre oito e 14 anos - que desenvolvem um universo paralelo e autônomo e representam as contradições dos adultos com ironia e de forma espontaneamente clara e sábia.

Ao retomar ano após ano a sua guerra particular, os garotos das vilas de Velran e Longeverne adiam a chegada da idade adulta, onde certamente os espera o mesmo árduo trabalho cotidiano dos seus pais, rudes trabalhadores do campo. Mas o fazem de uma maneira que privilegia sobretudo o lado terno das emoções e onde as vitórias se medem pelo número de botões capturados ao "inimigo". Capazes de compreender seu futuro próximo e de experimentar suas próprias contradições, nem por isso eles deixam de viver sua saga com a ternura pela natureza e o respeito diante do ser humano adversário. O que não impede, entretanto, que a traição seja punida com severidade. Proclamada a República entre os Longeverne, o "realista" Bacaillé recusa-se a tomar parte - por medo ou comodismo - no confronto e pratica o pior de todos os defeitos, delatando ao chefe dos Velran as armas secretas e o refúgio de seu grupo.

A guerra torna-se então cada vez mais acirrada e a violência fisica sobre o delator desfaz a relativa autonomia do universo infantil, provocando a intervenção dos pais de Lebrac e L'Aztec, lideres dos grupos, que são enviados para o internato. Mas o reencontro dos dois meninos no colégio-interno restabelece, num abraço, a continuidade do confronto: sua permanência representa ainda uma última recusa ao universo "tapado", segundo Lebrac, dos adultos; melhor dizendo hoje, sua "caretice" que não consegue conviver com o lúdico e o mágico. À esta parábola adaptada por François Boyer, o diretor Yves Robert dá um tratamento que objetiva os elementos anedóticos da narrativa: "um grau zero da escritura", predominantemente denotativo, que raramente mergulha nos mistérios mágicos dos personagens que expõe. Apenas em duas seqüências - na guerra do lago, quando o guarda-chuva de repente assume a aura de um imponente cisne nadando ou no momento em que Lebrac, em sua casa, absorve-se na contemplação dos círculos concêntricos em seu prato de sopa ao som das marteladas do pai - Robert intervém para estabelecer um equivalente cinematográfico ao universo mágico narrado. A força da parábola transcende os recursos de artesão do realizador que, no entanto, sabe tornar viva esta saga infantil, magnificamente bem representada por alguns meninos em 1961, dirigida tanto aos meninos de ontem como aos de hoje.

Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal O Globo em 5 de julho de 1978