A Dama do Lotação

A Dama do Lotação : Conformismo e loucura

 

O encontro do cinema brasileiro com um dos seus mais densos meios de expressão: a poética dramática de Nelson Rodrigues e seu universo obsessivo de taras, fixações e religiosidade. Oitavo filme baseado em sua obra, é o primeiro inspirado em conto de sua autoria além de estabelecer a estréia do romancista e dramaturgo nos diálogos e adaptação do roteiro, extraído de obra escrita há mais de 20 anos. Marca também o encontro de um autor renovador, incompreendido à época de sua aparição e só mais tarde aceito pela nossa inteligência, com as aspirações de Neville Duarte de Almeida, cineasta independente, autor de dois longa-metragens — Jardim de guerra e Piranhas do asfalto — e vários curtas, que agora obtém um público à altura de seu trabalho.

Iniciando com uma vista da cidade e terminando com uma visão da baía da Guanabara, o filme se move na atmosfera urbana no ritmo de um coletivo, que conduz uma personagem contraditória e visceral, como costumam ser as criaturas de Nelson Rodrigues. Desvenda então outros personagens com os quais a "dama" se defronta em seu trajeto: a grande cidade e seus habitantes; o operário assustado; o pai do marido, hipócrita e depravado; o velho lascivo, o motorista de ônibus, malandro e astuto; o freak, etc. com quem Solange exercita sua paixão lúbrica e furiosa. Uma exibição que poderá despertar escândalo em que não saiba — ou talvez tenha esquecido — que Nelson é um católico praticante, declaradamente moralista, e Neville carrega uma formação protestante, não menos pudica.

Em A Vida como ela é, coletânea de contos, crônicas, peças escritas para jornal — da qual faz parte — A dama do lotação já detectava um fenômeno que as décadas posteriores iriam demonstrar inequivocamente: a mulher em busca de sua independência, sua rejeição ás instituições patriarcais, sua liberação sexual. Ainda que a recusa de Solange repita — de forma irracional — o comportamento agressivo e tradicionalmente ativo do homem, ela adquire a força de confronto numa sociedade em que o homem se considera como o caçador. "Não é uma Belle de jour", diz Neville, "não estou filmando com Catherine Deneuve, estou filmando em Cascadura, Jacarepaguá, na Avenida Atlântica, e a mulher é uma típica sulamericana".

Se o filme tem corno principio o movimento, o percurso dos coletivos — ônibus, frescões e o lotação da Rocinha — sua contrapartida está no imobilismo da casa, do lar, "a gaiola de ouro" onde a personagem é guardada do mundo exterior pelos preconceitos tacanhos e obscuros de seu meio. Na redoma onde foi criada, as paixões não chegam a aflorar — embora existam —, sua pureza é preservada como preciosidade, até que termina por se conspurcar. E então sua feminilidade irrompe tempestuosa, transformando-se passionalmente de objeto-conquistado em sujeito-conquistador. Na realidade, esta transfiguração conserva ainda os traços de uma moral masculina, que nem Nelson nem Neville são capazes de modificar,  e que"só em parte é desvendada: em parte ele continua porque é a alma da mulher, e a alma da mulher é sempre um mistério", conforme lembra o criador da personagem

 

Sérvulo Siqueira

 

Publicada no jornal O Globo em 17 de abril de 1978