Brasil ano 2000

 

Brasil Ano 2000: Deglutição e diluição

 

1927: Oswald de Andrade lança a palavra de ordem da Antropofagia: assumir a fome in perpetuum do nosso antepassado selvagem e aplicá-la na "deglutição" da cultura.   1967: José Celso Martinez Corrêa encena o Rei da Vela e Caetano Veloso, Gilberto Gil e Rogério Duprat lançam a Tropicália. Pouco tempo antes, Walter Lima Júnior realizava Brasil Ano 2000, somente agora exibido.

Depois da "deglutição'' de Oswald, Walter Lima lança agora uma nova palavra de ordem: diluir a deglutição. Está criado assim o "meta-selvagem", um personagem - melhor seria dizer um conceito -  que faz reflexões – a partir de categorias do pensamento ocidental – sobre sua própria situação.

O cinema brasileiro, depois de uma fase de "grossura" onde se exercitava naturalisticamente sobre a realidade brasileira subdesenvolvida, revelando a sua miséria e a sua crueza, passou do campo à cidade — talvez para mostrar o outro lado da contradição — e foi-se tornando progressivamente sofisticado. A tela, antes ocupada por gente pobre, misticismo, coronelismo, cangaço, fenômenos característicos do Nordeste, foi sendo substituída aos poucos por outra tela, agora preenchida pelo pequeno burguês, o político do Congresso, o jornalista, etc. Passava-se  assim de Monte Santo a Eldorado, de Palmares ao Rio de Janeiro, do engenho de cana-de-açúcar ao Ano 2000. Esgotando os grandes planos do sertão, o cinema novo passou aos grandes planos dos salões de reuniões políticas, aos grandes planos de aglomerados humanos das grandes cidades. De cinema novo  "pobre" a cinema novo "rico". Um cinema que já não fala da realidade econômica brasileira mas da supra-realidade cultural como uma nova realidade. Pode-se dizer que da "grossura" passou-se à "frescura". Ao mergulhar nas raízes da cultura brasileira a partir de seu dado tropical e se aproveitar de certa forma de uma tendência que já passou, Brasil Ano 2000 é o mais novo e legitimo produto desta transformação mas se torna um filme de referências que se fazem sempre ao nível do que está na moda. Uma obra que, desejando se apresentar como um mural de uma certa cultura, acaba sendo um amontoado de colagens, reprocessando mecanicamente os clichês do tropicalismo. E o que se vê é que pretendendo ser camp; estar à altura dos reclamos da moda, Walter Lima Júnior não consegue ir além do kitsch, diluindo e misturando corrida espacial, índios, política e tudo o mais. Daquilo que se supõe ser o grande achado do filme resta uma coisa a dizer: ao pretender fazer do astronauta o primitivo do espaço, Walter Lima apenas aplica uma relação proporcional matemática: coisa fácil de fazer para qualquer ginasiano. 

 

Sérvulo Peres Siqueira

 

Publicada no jornal O Diário de S. Paulo em 17 de junho de 1969