O Menino da Porteira

 

O Menino da Porteira

Cavalheirismo e melodrama num faroeste caipira

            Sérvulo Siqueira

 

Há hoje, em todo o Estado de São Paulo, mais de 200 rádios tocando música sertaneja. Segundo estatísticas o gênero representa 40% do movimento musical brasileiro, embora sua penetração ainda seja muito reduzida nos grandes centros urbanos. E foi esta constatação que levou a Topázio Cinematográfica, produtora estabelecida em São Paulo, a investir no fenômeno: O Menino da Porteira, baseado na música do mesmo nome de Luizinho e Teddy Vieira – considerada um clássico do repertório sertanejo tem o cantor e compositor Sérgio Reis como ator principal. Em apenas quatro meses de exibição nos Estados de São Paulo, Paraná, Goiás, Mato Grosso e Santa Catarina, o filme já foi visto por dois milhões de espectadores, alcançando uma renda bruta de Cr$20 milhões.

Moracy Do Val é jornalista em São Paulo onde assina uma coluna de show no jornal Notícias Populares, produtor teatral foi ele quem produziu Godspell e foi um dos fundadores dos teatros Oficina e Gazeta, além de ter administrado o Teatro Aquarius. Sua experiência com promoções em gravadoras e televisões e uma estreita vinculação com a música (até há pouco tempo ele empresava o grupo Secos e Molhados) levou-o a prestar especial atenção nas amplas possibilidades oferecidas pela chamada música caipira. A Topázio Cinematográfica foi fundada com a perspectiva da realização de filmes que ampliassem este mercado, até então restrito às comédias de Amácio Mazzaropi. Diz Moracy:

— Se você pega um boletim anual da Embrafilme, vai ver que entre os filmes de maior renda alcançada no Brasil estão cinco fitas de Mazzaropi, Mas a força de penetração desses filmes, embora não seja desprezível na cidade de São Paulo, está mais concentrada no interior do país, principalmente na região Centro-Oeste e no Sul. No entanto, o prestígio deste produtor decorre mais de uma antiga tradição: ele não se renovou, seus cacoetes ainda são os mesmos de 20 anos atrás. Em tudo isto, porém, havia um dado positivo: os filmes do ator e produtor, cujos estúdios estão localizados em Taubaté, obtinham permanente sucesso na capital de São Paulo.

Tomando por base esta constatação, Moracy e seus sócios na Topázio (Jeremias Moreira Filho, cineasta dirigiu dezenas de documentários e comerciais de televisão, foi assistente de Luís Sérgio Person e diretor de produção de O Predileto de Roberto Palmari, entre outros e Carlos Raele, profissional de cinema responsável pelo setor de produção de filmes nacionais do grupo Líder-Rex Laboratórios Cinematográficos, e que também foi diretor de produção do filme O Menino da Porteira) iniciaram a produção de um gênero que pretende ser uma espécie de faroeste caipira A Marte Filmes, uma das mais antigas empresas produtoras e distribuidoras de cinema no Brasil, associou-se ao projeto, como co-produtora, conforme conta Moracy Do Val.

Começamos a procurar um argumento que tivesse o maior alcance possível, diz ele. Um dia vi Sérgio Reis, que eu já conhecia pelo seu sucesso Coração de Papel, cantando O Menino da Porteira, um clássico da música caipira de 25 anos atrás. A canção é uma espécie de cururu, que conta a história de um menino que corre para abrir a porteira que dá passagem para o boiadeiro e seu gado e pede apenas em troca que o moço toque o seu berrante A música já teve mais de cem gravações e faz parte obrigatória do repertório de todas as duplas sertanejas. Já foi também gravada por conjuntos de música jovem e por Jair Rodrigues.

A gravação de O Menino da Porteira representou uma virada na carreira de Sérgio Reis. Depois de obter um grande sucesso comercial com Coração de Papel na época da Jovem Guarda, o cantor e compositor conheceu uma fase obscura. Dela saiu quando, numa mudança de 90 graus, resolveu gravar uma canção sertaneja. Da gravação foram vendidos, no primeiro ano, 500 mil compactos; até hoje, em três Lps do cantor, o total de cópias vendidas gira em torno de um milhão. Hoje, Sérgio Reis é um dos artistas que mais shows fazem no país, segundo Moracy.

A seguir: Chumbo quente e Mágoa de boiadeiro

Os filmes musicais inspirados na cultura sertaneja formam um gênero que tem tido pouca divulgação no Brasil. Em geral, a penetração destes filmes — que são quase sempre de má qualidade – é muito reduzida nos grandes centros urbanos. Há pouco tempo, emergiu da Boca do Lixo — núcleo de onde se irradia hoje o cinema paulista o filme Sertão em festa. Feitos com a rusticidade dos próprios temas que abordam, estes registros cinematográficos se destinam basicamente ao publico do interior, com o qual buscam uma identificação cultural.

A razoável penetração da música caipira nas grandes cidades e o sucesso comercial de O Menino da Porteira música e filme despertaram os meios de comunicação para o fenômeno. A Blimp, produtora de São Paulo que realiza documentários para a Tv Globo, está no momento fazendo uma reportagem para o Globo Repórter sobre a atual ascensão da música sertaneja. Moracy Do Val fala do filme do qual é um dos produtores:

A inspiração do filme vem diretamente da música que lhe dá o nome. Procuramos seguir, sem fazer grandes inovações, a letra da melodia. O personagem e um herói humano que está a serviço dos pobres contra os poderosos. O filme tem certamente alguns defeitos, e a razão do seu sucesso está sem dúvida diretamente ligada ao sucesso da música. Mas o importante, acredito, é que ele é um piloto, e sua repercussão levará, como já está acontecendo, a realização de outros filmes no gênero. Isto é extremamente benéfico. A Topázio já está co-produzindo um outro filme, Chumbo quente, com Léo Canhoto e Robertinho, uma dupla que faz shows todos os dias e vende 200 mil Lps por ano. E, em outubro, começaremos a filmar Mágoa de boiadeiro, baseado na música de índio Vago e Nonô Basílio, novamente com Sérgio Reis como ator principal.

Ele, que antes recebia Cr$ 6 mil de cachê por apresentação, passou a ganhar Cr$ 30 mil por show. Seu mercado de trabalho, que se limitava a São Paulo e ao Centro-Oeste, expande-se agora em direção ao Sul, no rastro do sucesso da película. De cantor urbano ele passou a ser o principal intérprete de música sertaneja. Com isso, ocorreu um fato muito importante: os autores da música caipira começaram a receber direitos autorais, coisa que até então não acontecia, pois eles simplesmente ignoravam que havia necessidade de editar suas obras.

O Menino da Porteira foi filmado nas cidades de Borborema e Tabatinga na região de Araraquara, interior paulista em cenários naturais. A direção do filme coube a Jeremias Moreira Filho, sócio de Moracy na Topázio; o argumento original foi escrito por Ciro Pelicano, um redator de publicidade. A adaptação coube a Wenceslau Moreira Silva Neto e o roteiro e os diálogos ficaram por conta do diretor e seu irmão Wenceslau Silva Neto.

Já exibido em Recife e Aracaju onde diz-se que repetiu o sucesso do Centro-Oeste e Sudeste, o filme tem sua estréia prevista para a semana que vem ao mesmo tempo em que inicia sua carreira no Rio no Rio Grande do Sul. Segundo o produtor Moracy, será o maior lançamento já realizado nesse Estado. Dezenove cinemas, seis em Porto Alegre, os restantes nas cidades de Pelotas, Caxias, Rio Grande, Santa Maria, Uruguaiana, Livramento, Bagé, Novo Hamburgo, Passo Fundo e São Leopoldo, poderão permitir que se registre um sucesso equivalente ao registrado em outros Estados. Já, o Rio, para o produtor, é uma "incógnita".

O Rio, além de nunca ter sido um sucesso para Mazzaropi, representa até hoje um campo inexplorado, comenta Moracy.

A história de O Menino da Porteira conta a vida de um peão de boiadeiro, Diogo, que é interpretado por Sérgio Reis. Ao passar pelas pradarias, ele faz amizade com o menino Rodrigo cujo intérprete é Márcio Costa que sempre abre a porteira para a passagem do gado. Seu destino é a fazenda Ouro Fino, de propriedade do poderoso major Batista — vivido no filme por Jofre Soares. Depois de entregar a boiada, o boiadeiro ruma para a vila, onde é procurado por um grupo de sitiantes que o informam sobre o despotismo com que o major domina a região. O major, contam-lhe, força criadores e sitiantes a vender gado e terras pelo preço que ele estabelece, e quem não obedece é sempre alvo de violências.

No conflito que se segue uma vez que Diogo resolve tomar o partido dos sitiantes há emboscadas por capatazes a mando do major e como nas histórias água-com-açúcar um romance entre o peão e Juliana (a enteada do major), papel é interpretado por Maria Vianna. O final é trágico, como nos melodramas, sublinhado pelos acordes da música-tema que acompanha Diogo.

 

Matéria publicada no jornal O Globo em 20 de setembro de 1977