Boi de Prata

Boi de Prata

 

Direção: Augusto Ribeiro Jr. Argumento e Roteiro: Augusto Ribeiro Jr. Fotografia: Walter Carvalho Cenografia: Jaime Figueiredo. Figurinos: José Boulieu. Maquilagem: Amaro Lima. Montagem: Severino Dadá. Diretor de Produção: Sanin Cherques. Elenco: Luísa Maranhão (Maria dos Remédios, Cigana Salomé e índia Jurema. Alvinho Guimarães (Elói Dantas), Lenício Queiroga (Tião Poeta e Padre Rolim), José Marinho (vaqueiro Antônio), Fátima Barreto (Beatriz). Produção: Cine TV Ltda. Brasil, 1978/1979.

 

Juntamente com o mineiro O Bandido Antônio Dó, de Paulo Leite Soares, Boi de Prata é produto de primeira safra da política da Embrafilme de implantar novos pólos cinematográficos em convênio com os Estados da União. Filme nordestino por excelência, a idéia e o argumento nasceram no Rio Grande do Norte, assim como os recursos financeiros, obtidos por meio de um convênio entre a Embrafilme e o Governo estadual. Metade da equipe e do elenco é de pessoas da Região. Mas o que o realizador, Augusto Ribeiro Jr. ressalta como fundamental são o tema e sua abordagem, que procuram integrar a vivência e a ótica regional dos participantes da produção. Sobre o argumento, nascido da cultura popular, depõe o diretor:

O tema já foi abordado seguidas vezes por uma geração de cineastas que, afastando-se dos grandes centros e munidos de um ótica sociológica, encararam o Nordeste somente como laboratório de contradições econômicas e sociais. A proposta de Boi de Prata é ampliar o ângulo da questão. O transe místico e a intensa insolação fazem parte de todo um quadro de relação do homem com a natureza. A natureza é mais triste do que o homem no filme: as árvores, os rios, as pedras falam, e sua fala é triste e sensual.

Considerado por Augusto Ribeiro Jr. como "um mergulho no fundo do poço em busca de um símbolo", o filme encontra o que procura justamente no Boi Calemba, tradição do folclore do Rio Grande do Norte. Ao dramatizar a sua representação, próxima à tradição das touradas, o filme busca o predomínio do espetáculo, da imagem. Nessa representação estão imbricados três planos de narração: o plano real, o plano mitológico e o plano da representação desta mitologia do folguedo popular.

O filme, declara o diretor, realiza-se antes de tudo como espetáculo audiovisual, para ser curtido, por todas as idades, pelas suas cores e pela música:

– Uma harmonia de movimentos e timbres é o que pretendo, a fim de conseguir uma espécie de melodia cênica, uma relação sensorial e menos literária com realidade.

Em torno do Boi Calemba, arquétipo da cultura popular do Rio Grande do Norte, agrupam-se outros símbolos e forças de representações do homem do sertão na sua identificação com as forças da natureza: a cigana Salomé, a índia Jurema, a Onça Pintada e o padre Rolim acompanham os personagens num mergulho onírico no universo fantástico da cultura sertaneja.

– E como se realiza a narrativa? Como a história se articula com estas intenções?

Responde Augusto Ribeiro Jr.:

– A história impressiona muito menos do que o caráter visual e pictórico do filme. Tentei dessacralizar a palavra através de uma estrutura visual. Por isso, o filme não tem muitos diálogos.

A ação se passa, ao contrário de muitas visões anteriores do  Nordeste, não no tempo dos velhos engenhos de açúcar, mas nos dias atuais. A Região, no filme, é aquela onde surgem ricas jazidas de minérios que despertam a cobiça das multinacionais e onde a presença de modernos executivos, em lugar dos antigos coronéis, aponta para um Brasil industrializado. Nesta paisagem entram em choque velhos interesses remanescentes do semifeudalismo: do latifundiário e do vaqueiro que vive na pequena gleba doada pelo senhor de terras. São eles o jovem Elói Dantas (Álvaro Guimarães), herdeiro da grande propriedade e também executivo cosmopolita que se associa a uma empresa multinacional para exploração de uma mina de xelita, minério de interesse para a indústria nuclear; e o velho vaqueiro (José Marinho), em cuja terra está, por azar, o veio de minério.

Desfazendo os limites da narrativa tradicional e da simultaneidade de tempo e espaço, irrompe o personagem de um poeta, representado pelo ator do Rio Grande do Norte, Lenício Queiroga. No poeta incorpora-se um personagem fantástico, Padre Rolim, que o conduz a um delírio marcado pela imagem de um castelo, ao mesmo tempo lugar de repouso e de tormento. Mas o padre conduz também o poeta ao encontro de outras entidades que abrem seu espírito: a índia Jurema — transfiguração da curandeira Maria dos Remédios (Luísa Maranhão) - e a Onça Pintada. Num momento de transe místico, Tião e Maria dos Remédios assumem as personalidades do Padre Rolim e da cigana Salomé. Maria, então, diz:

A cigana Salomé, Tião, pertencia ao bando do cigano Belisário. Vieram do Egito. Era uma beleza ver Belisário e seu bando entrarem nas feiras daqui. Os arreios dos burros, arreios de prata bonitos e trabalhados, uma beleza. A cigana morreu assassinada, os demais do bando a  enterraram e jamais voltaram.

Enquanto caminha numa trilha, Remédios assegura ao poeta:

– Sua força agora virá da índia Jurema como toda a minha força provém desta sepultura. A falange dos ciganos é comandada por Salomé.

Tião, então, acrescenta:

E o Boi Prateado.

E a mulher:

– Esta é a primeira forma em que apareço. Você é Poeta, Tião, viu primeiro. Mas um dia todo o povo vai ver também. Um dia eu me viro no Boi pra sempre. Desapareço de uma vez e todo o povo vai andar atrás de mim dançando e cantando e vai ter muita fartura.

 O rico imaginário da cultura popular nordestina é captado por meio dos versos de cordel do poeta Tião que, como verdadeiro artesão das palavras, vende seus trabalhos na feira. Lá fica ao lado do vaqueiro Antônio, que oferece seu couro em várias tendas. Ninguém compra. É tempo de vacas magras. Os romances escritos por Tião refletem, na maioria das vezes, personagens e fatos de seus delírios. Como nesta cena de pregão:

– Os Sete Sapos da Cigana Salomé e o Romance do Boi misterioso! A catimbozeira que se virou num Boi Prateado! A chuva de sapos que assombrou o Sertão! Romances misteriosos com emoção e aventuras! A história do Padre Rolim! O padre que mamou na onça!

No plano do real, o conflito entre o moderno empresário Elói e o velho Antônio termina com a vitória do mais forte, mas no plano do imaginário o desfecho violento inverte a fábula: Tião assume a figura mítica do Boi Calemba e, auxiliado pela legião de ciganos de Belisário, vinga a morte do vaqueiro.

 

Sérvulo Siqueira

 

Publicada na revista Filme Cultura 33, maio de 1979