A Fiel e o Corinthians

A Fiel, um documentário sobre o Corinthians

A necessidade de torcer pelo índio (contra o mocinho)

                            

                                      

Clube sobre o qual já se escreveu um ensaio sociológico, além de um sem-número de reportagens, o Sport Club Corinthians Paulista é antes de tudo a força e o vigor de sua torcida, que sobreviveu a 23 anos sem a conquista do campeonato paulista de futebol e ainda assim continuou a crescer. Após tornar-se campeão do IV Centenário, em 1954, sua estrela de grande time ofuscou-se durante a "era Pelé" e, mesmo depois do abandono pelo jogador dos campos de futebol no Brasil, ainda tardava em refulgir.

Finalmente, em 13 de outubro de 1977, depois de um duro e pouco brilhante campeonato paulista, dois times chegaram a uma decisão de melhor de três partidas. A pequena Ponte Preta, time de Campinas, o mais antigo clube do Brasil, e o "Coringão do Parque São Jorge", como é chamado pela sua fanática e imensa torcida. Era a hora. Uma equipe de cinema se deslocou até São Paulo com os olhos postos na sua torcida, "A fiel", um dos seus muitos nomes que dão a medida de uma devoção. Depois de um trabalho de montagem a partir de mais de duas horas de copião, o curta-metragem "A fiel" estreou dia 30 do mês passado em São Paulo. A proposta do filme é estabelecer um diálogo com o público a partir de uma perspectiva popular, segundo os propósitos de seu diretor Lael Rodrigues, que narra aqui a trajetória do filme, do seu gérmen – há três anos atrás até a sua conclusão e lançamento em 10 cinemas no Estado de São Paulo.

Para começar, como é que surgiu a idéia do filme?

Foi mais ou menos há três anos. Eu e um amigo meu jornalista discutíamos que seria interessante fazer um filme sobre a torcida do Corinthians, que é um pouco diferente das outras torcidas. Além do fato de que o time do Corinthians não ganhava há bastante tempo, ela se distingue das outras por ser muito mais fanática e menos folclórica. As torcidas do Flamengo e do Fluminense fazem muito mais barulho em torno de si mesmas e têm talvez muito menos amor ao time. Por outro lado, há uma outra característica que o corintiano traz e que é inexplicável : ele é capaz até de vender o filho pelo clube. No filme tem um momento em que um entrevistado diz isso: "Posso perder  minha   mulher, posso perder meu filho, mas o Coringão ninguém acha". Parece uma paixão que é mais do que uma simples torcida, é uma religião. Para este torcedor não importa que a vitória do time no campeonato paulista seja até obtida à custa do suborno da Ponte Preta; o que interessa é que o Corinthians ganhe. Isto é uma consideração que somente um corintiano faria, nunca um flamenguista ou um atleticano.

O filme se preocupa então em analisar por que se estabelece esta relação, como surge esta paixão?

Apenas de maneira casual. A partir do momento em que nós tivemos esta idéia, começamos a nos preparar para fazê-lo, mas não tínhamos as condições. Inclusive, fiquei muito frustrado por não ter filmado a semifinal do Campeonato Nacional de 76, quando o Corinthians quase foi campeão ganhou do Fluminense e perdeu para o Internacional e você já sentia que este era um fenômeno completamente louco: nunca uma torcida do Flamengo invadiria São Paulo como a torcida corintiana invadiu o Rio de Janeiro. Foi um acontecimento que espantou os cariocas. Isto foi muito frustrante; não deu para filmar em 76, em 75 também não tinha dado, e em 1977 surgiu a oportunidade. Eu estava fazendo o "Boi pintadinho", um filme para a Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro, tinha bastante negativo e pelo menos o dinheiro para ir e voltar. A decisão do campeonato estava marcada para uma melhor-de-três: no primeiro jogo que o Corinthians ganhou com um gol discutível - não foi possível cobrir e aí nós fomos para São Paulo com a esperança de que tudo se resolvesse no segundo jogo o que seria muito melhor para nós, já que a barra de dinheiro não estava fácil. O Edgar Moura, que era o câmera e o fotógrafo, levou a máquina dele, muito rudimentar e difícil de trabalhar. Filmamos um pouco com filme branco e preto, um pouco a cores e a única conversa que eu tinha com o Edgar, para demonstrar o que eu queria, era no sentido de lhe transmitir que o filme tratava especificamente da torcida e do seu comportamento. No mais, o trabalho foi feito a partir de um diálogo quase intuitivo: o que ia surgindo, a gente ia discutindo e filmando. Como o Corinthians não ganhou este jogo, o terceiro seria decisivo e então nós resolvemos partir para condições melhores, porque sabíamos que alguma coisa ia acontecer. Se ganhasse, a gente sabia que ia ser a festa que foi e se perdesse, coisas terríveis poderiam ocorrer. Isto porque ele nunca esteve tão perto da vitória: nas outras vezes, eram sempre times grandes e não um clube considerado pequeno como a Ponte Preta. Então se perdesse, era certo que ia dar alguma confusão. Arranjei uma câmara de melhor qualidade, uma Eclair, e partimos novamente. A perspectiva continuava a mesma: o que interessava era o que o corintiano ia fazer e não o Corinthians. E como o Edgar, além de fotógrafo é também um bom repórter ,foi percebendo estas relações e muitas vezes fez sozinho grande parte do trabalho.

Houve outras pessoas na equipe?

Além disto, também havia um pequeno apoio com um parque de luz, o Sérgio Sbragia com uma câmara a mais, outras entrevistas que fiz e foram aproveitadas em pequenos trechos na montagem. Eu tinha idéia de filmar bem mais: entrevistar o sociólogo Sérgio Micelli, o governador Paulo Egydio torcedor do Corinthians , entrevistar o presidente Vicente Matheus e outras personalidades. Mas à medida que ia montando este material, organizando-o para a segunda parte, vi que ele por si só já se constituía num filme completo, todo em cima da emoção, da violência desta torcida naquele momento. E se eu fizesse um filme com entrevistas, isto iria cortar todo o impacto daquela vitória. Na verdade, eu não tinha como cortar.

  E talvez o filme adquirisse uma forma mais acadêmica, não é verdade?

  Em termos de linguagem de cinema, eu realmente não gosto de fazer um filme com este tipo de entrevista. Ou seja, você coloca uma pessoa, como se fosse um boneco na frente da câmara, e ela é entrevistada. Porque uma coisa é o que a pessoa realmente é e outra coisa é a imagem que ela quer mostrar. Quando se vai entrevistar uma pessoa, ela se prepara para se justificar muito bem, para se colocar da melhor forma possível. E isto acaba não sendo o que a própria pessoa é. É muito diferente o que tem no "Boi pintadinho" e o que acontece na "Fiel", quando as pessoas falam a besteira que querem, em off, porque estão despreocupadas da sua imagem, que não está em quadro. Agora se você entrevista o Vicente Matheus ou o Paulo Egydio. eles jamais vão se expor publicamente.

No dia 13 de outubro fez um ano que o Corinthians se tornou campeão, depois de 23 anos sem conseguir um título. No momento em que você está concluindo e lançando o filme, qual a razão da demora e como você vê a relação entre o projeto do filme e a sua realidade final?

  Eu corri por causa disto, porque entre a filmagem e a finalização eu fiz outros filmes e não pude terminar antes. Fiquei com o material guardado e fui montando muito aos poucos. Quando chegou em setembro é que começou a correria para concluir pelo menos a cópia em 16 mm para a comemoração da vitória do time. Foi a partir desta cópia que os exibidores ficaram sabendo, a Embrafilme marcou o filme sem ele estar totalmente pronto, sem os certificados do Concine e da Censura. E a correria foi tão grande que talvez tenha prejudicado o filme na parte de acabamento, sobretudo a ampliação. Tudo para que ele entrasse o mais rápido possível no Estado de São Paulo, o que acabou acontecendo no dia 30 do mês passado, em 10 cinemas do estado. Inicialmente ele está previsto para acompanhar o filme do John Travolta, "Nos tempos da brilhantina" e no momento está sendo exibido em quatro cinemas da cidade de São Paulo, dois em Santos e em São Caetano, Santo André, São José dos Campos e Taubaté. Minha emoção em fazer o filme veio da descoberta do torcedor corintiano neste momento muito especial de vitória e de como estes 23 anos sem vitória estavam dentro deles. Isto, independente de terem visto seu time ganhar: eram meninos de 10 anos, 15 anos, que nunca viram um campeonato do seu Curingão e no entanto continuavam cada vez mais fanáticos. Apesar de tudo, a torcida aumenta cada vez mais, um charme tão grande que, quando o Corinthians ganhou, todas as crianças passaram a ser corintianas. A camisa do time é uma coisa quase mágica, um carisma que vai muito além de um clube, é a necessidade de um povo de participar, de ter fé, de torcer por alguma coisa, de jogar a emoção em cima do pior. Como se estivesse torcendo pelo índio contra o mocinho, porque o Corinthians significa, sem dúvida nenhuma, o índio.

Publicada no jornal O Globo em 14 de agosto de 1978

 

Sérvulo Siqueira