A Crise do Cinema

 

A crise do cinema

 

Sérvulo Peres Siqueira

 

“As técnicas de reprodução aplicadas à obra de arte modificam a atitude da massa a respeito da arte. Refratária, por exemplo, diante de um Picasso, esta massa torna-se profundamente progressista a respeito, por exemplo, de um filme de Chaplin”.

Assim Walter Benjamin saudava num famoso ensaio escrito em 1936, A obra de arte no tempo das técnicas de reprodução, o aparecimento do cinema como uma verdadeira arte de massas.

 

A grande parte da responsabilidade por este diálogo com o público cabia a Hollywood que durante um largo tempo havia estabelecido uma superioridade de quantidade e qualidade em sua linha de produção, amparada sobretudo em uma eficiente fabricação em série e numa política de valorização dos gêneros cinematográficos, especialmente os filmes musicais, o western, o policial e a comédia.

 

Entretanto, pouco mais de uma década depois deste ensaio o cinema estava em crise. O fantástico sucesso comercial da televisão e a alta taxação de impostos governamentais sobre Hollywood podem ser apontados como as principais causas.

 

O aparecimento da televisão provoca o êxodo do público das grandes salas de exibição, que vai então se concentrar diante de um pequeno aparelho geralmente disposto na sala de jantar, buscando aquele mesmo tipo de divertissement ou soporífero (como querem alguns), que outrora alimentava, segundo Edgar Morin, o “homem imaginário” do cinema de espetáculo.

 

Por outro lado, a elevada incidência de impostos sobre Hollywood faz concentrar a sua produção num número mais reduzido de produções, que procuram garantir por meio de sedutores apelos publicitários a frequência periódica do espectador ao cinema. Elimina-se com isso a média e a pequena produção (os filmes de série B, espécies de produções marginais dentro do grande cinema industrial) e na base desta nova política produz-se um novo êxodo: a saída de produtores americanos independentes para a Europa.

 

Com o desmantelamento deste império do som e da imagem, as principais companhias americanas como a Metro Goldwyn Mayer, 20th Century Fox, Warner Brothers, e produtores independentes ou semi-independentes amparados por estas companhias como Samuel Bronston, Sam Spiegel, Darryl Bronston, Dino de Laurentis e Carlo Ponti entre outros, lançam-se à produção de filmes históricos, em 70 mm, contratando famosas estrelas cinematográficas e investindo milhões de dólares na reconstituição de grandiosos cenários construídos para produções de cinema realizadas na Europa.

 

Ao lado deste fenômeno, que irá se transformar num verdadeiro “plano Marshall cinematográfico”, surge nos anos anteriores à década de sessenta a nouvelle vague francesa, a partir da qual nasce o cinema novo mundial que, propugnando por uma política de filmes baratos, descartando-se da tirania dos estúdios e ensaiando uma liberdade total de linguagem, procura desligar-se dos complexos industriais de produção–distribuição–exibição até então impostos pelas companhias americanas.

 

Neste cenário, o cinema dos anos sessenta vai ser um cinema que não admite meias medidas. O seu mercado estará radicalmente dividido em grandes e pequenos. De um lado as superproduções em 70 mm Panavision, alicerçadas num amplo mercado e amparadas em gigantescos circuitos de distribuição e exibição, majestosas salas de espetáculos, representadas por estrelas de cachês altíssimos e cujos bordereaux são diretamente proporcionais a esta grandiosidade.

 

Paralelamente a isso, irrompe um cinema que é marginal às estruturas capitalistas geridas pelas companhias americanas, cujos pequenos produtores investem pouco em função de um reduzido mercado composto por circuitos de exibição quase marginais e com pequenas salas de espetáculos frequentadas por um público de já iniciados (ou cinéfilos), cujo amor pelo cinema parece aumentar na razão inversa do seu sucesso comercial. É exatamente este publico que vai alimentar o nascimento do cinema novo mundial, inclusive o cinema novo brasileiro.

 

A TV passa então a ocupar a função do cinema do período áureo de Hollywood. Nascida de um processo de continua evolução tecnológica e à procura de uma forma própria de expressão, ela vai incorporar ao seu conteúdo a linguagem do veiculo que superou na preferência do público: a chamada 7ª Arte. Assim como a fotografia impõe à pintura uma mudança radical, na medida em que captando a realidade à perfeição liberta a pintura do seu ideal de representação do real, da mesma forma também a televisão, impondo ao cinema uma crise e uma transformação radicais, que se traduz como vimos numa política de grandes e pequenas produções, vai processar aquilo que fizera do cinema uma verdadeira arte das massas. Veremos então os canais de TV se abarrotarem de filmes musicais, westerns, comédias e policiais, verdadeiras reminiscências da grande fase hollywoodiana, preenchendo agora na pequena tela de tv aquela função que outrora cabia às salas de exibição.

 

Os mais importantes estúdios de Hollywood, recompondo-se de profundas alterações, restabelecerão, apoiados nos controles que algumas companhias americanas ainda exercem nos circuitos do mundo, uma linha razoável de produção e canalizarão parte do seu esforço para a televisão. Assim, veremos nascer na TV a fórmula dos enlatados que bem ou mal imporá ao cinema americano uma política reduzida de renovação de quadros.

 

 

Publicado no Diário de S. Paulo, em 8 de setembro de 1968