23 de outubro de 2012

 

Responda rápido: Qual é o maior escândalo da História do Brasil, o mensalão ou o julgamento do mensalão?

 

  Ou todos nos locupletemos, ou restaure-se a moralidade.

Barão de Itararé

 

 

Há um bom tempo a oligarquia brasileira esperava por este momento. Depois de seguidamente derrotada e cada vez mais perdendo terreno, desmoralizada, considerada responsável por graves crimes contra o patrimônio da Nação, o julgamento do chamado “mensalão” representou para a velha  direita do nosso País a esperança de obter por intermédio dos poderes da Justiça – sempre suspeitos, discricionários, injustos e a serviço dos poderosos – o que não vem conseguindo por meio dos votos. Ao programar o julgamento simultaneamente com as eleições municipais, os neoliberais do PSDB, os ruralistas do DEM, os tradicionais fascistas rancorosos e os meios de comunicação imorais e mentirosos esperavam que os doutos senhores do Supremo pudessem lhes fornecer os argumentos com os quais pretendem tomar o poder.

Ainda não alcançaram o seu objetivo. Apesar da cobertura tonitroante que o tribunal de exceção criado para o julgamento recebeu dos meios de comunicação e da demonização prévia imposta aos réus, a população votou nos candidatos do partido que estava sendo submetido a processo.

Não contente com o escândalo artificial que produziram, a casta da Justiça e seus associados criaram um dos episódios mais sinistros da nossa história, sempre alardeando estar julgando o “maior escândalo de corrupção do Brasil”. Em seu intento de produzir uma peça acusatória convincente, fascistas de ontem e de hoje valeram-se de um verdadeiro Exército Brancaleone: um procurador que não demonstrou nenhuma competência jurídica em sua denúncia e juízes que, entre outros, bebem e batem na mulher, defendem o golpe militar de 1964 como “um mal necessário”, concedem habeas corpus a notórios bandidos e recusam-se a imputar o ex-presidente Fernando Collor de Melo “por falta de provas”, mas condenam o ex-ministro José Dirceu, apesar da absoluta falta de provas. Mais assustador ainda é quando o Supremo Presidente da Suprema Corte nega-se a usar o seu Supremo Direito de voto de desempate com o argumento de que "isto iria beneficiar o réu". Aquele que deveria ser um momento histórico de aplicação da justiça no País se transformou num dos mais vergonhosos episódios de toda a história política do Brasil.

Há hoje entre uma parcela da população um sentimento de que em sua obsessão pelo poder, em seu desespero para recuperar o prestígio que perdeu junto ao voto popular, a direita mais reacionária e façanhuda tenha violado um acordo que presidiu durante séculos as relações entre as elites que governaram o Brasil. Insuflados pelos meios de comunicação que os transformaram em estrelas do jornal da noite e pressionando de maneira acentuada por uma cabal condenação de seus adversários – mesmo ao revés da falta de provas e frequentemente contra muitas evidências em contrário – os novos guardiões da moralidade vigente talvez tenham violado uma espécie de lei do silêncio estabelecida entre os poderosos que recomenda que a apuração dos crimes não deve romper a ordem dos costumes, ou seja, aqueles que detêm o poder devem perdoar-se mutuamente de suas faltas mais clamorosas para evitar que o grosso da população – a gentalha, a ralé fique a par do que acontece por debaixo dos panos. Correm agora o risco de se desmoralizar por completo se os padrões que empregaram para condenar os inimigos políticos forem usados também para julgar os crimes que cometeram neste País. Há a possibilidade de que, mais uma vez, o feitiço se volte contra o feiticeiro.

O objetivo de toda essa heterogênea camarilha é certamente ir mais longe e proscrever da vida pública a figura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está em vias de impor uma humilhante derrota a um dos principais representantes desse saco de gatos político nas próximas eleições para a prefeitura de São Paulo.

No momento em que o imperialismo americano urde novos tipos de golpe como o que ocorreu recentemente no Paraguai, onde um parlamento corrupto e venal destituiu em cerca de duas horas o presidente legítimo do país, suspeita-se que esteja em processo um novo tipo de golpe, o judiciário.

Aqueles que têm algum conhecimento da história do nosso país, que possuem a consciência de que os bandidos sempre ganharam a maior parte das batalhas e de que raras vezes a grande população saiu vitoriosa, temem uma reedição dos tempos de João Goulart, quando a velha UDN, hoje reencarnada no sinistro PSDB, não tendo conseguido obter os votos que almejava para chegar ao poder, aliou-se aos militares e ao imperialismo americano para o fatídico golpe de 1964.

Hoje, não conseguindo provavelmente angariar o apoio do estamento militar, aproxima-se da  justiça e de sua sinistra casta sem nenhuma ética ou escrúpulo, para forjar novos e diferentes ensaios de golpe de Estado. O conluio está carregado de tons sombrios e ameaça produzir uma grande crise institucional no Brasil.

Afinal, o que poderá pensar o cidadão quando perceber que a mais alta Corte de Justiça do país condena réus sem nenhuma evidência de culpabilidade? Mais ainda, como o brasileiro comum poderá respeitar qualquer juiz de comarca quando vê que os mais conspícuos togados da República lavam roupa suja sem nenhum pudor e ofendem-se mutuamente em plenário?

Será que voltaremos aos tempos do Julinho da Adelaide, o compositor fictício inventado por Chico Buarque para driblar a censura da época da ditadura, que cantava estes versos?

 Acorda amor/ Eu tive um pesadelo agora/ Sonhei que tinha gente lá fora/ Batendo no portão, que aflição/ Era a dura, numa muito escura viatura/ Minha nossa santa criatura/ Chame, chame, chame lá/ Chame, chame o ladrão, chame o ladrão.

 

                                                                                                            Sérvulo Siqueira