18 de julho de 2017

 

A América Latina, entre Deus e os Estados Unidos*

 

Em 1981, o cineasta venezuelano Diego Risquez apresentou no Festival de Havana um documentário que se encerrava com uma famosa meditação de Simón Bolívar em que o maior dos nossos libertadores afirmava a dificuldade da América Latina de se tornar governável. Bolívar se referia por certo à pesada herança colonial europeia, ao massacre dos nativos indígenas e à terrível escravidão dos negros trazidos da África.

Na época, um cineasta cubano, Julio Garcia Espinosa, diz a Risquez que o projeto da Revolução Cubana buscava precisamente o inverso desta realidade, ou seja, propor à nossa América, então praguejada por toda sorte de ditaduras, um modelo de sociedade que – economicamente justo e socialmente igualitário – desmontasse o legado colonial e retomasse o seu processo histórico de desenvolvimento.

Foi somente no final do século 20 e início do novo milênio que o nosso subcontinente − bafejado por uma conjunção de fatores que iam desde o surgimento de novas lideranças, a valorização do preço das matérias-primas e dos produtos agrícolas, assim como as guerras dos Estados Unidos no Oriente Médio − retomou o seu processo de desenvolvimento com alguma liberdade política.

Entretanto passados menos de 20 anos, esse projeto que propôs um modelo de maior inclusão de setores marginalizados à sociedade começa a sofrer uma crescente erosão, decorrente em parte de seu caráter assistencialista e baixo nível de politização e também em razão da reorganização das forças patrocinadas pelo imperialismo norte-americano na região, que decidiram se empenhar na retomada do espaço perdido.

A partir de Mauricio Macri, na Argentina, e da vitória de Pedro Pablo Kuczynski, no Peru, assim como do golpe contra Dilma Rousseff, no Brasil, as oligarquias que gerem a América Latina há séculos começaram a recompor o seu poder político e hoje ameaçam de forma crescente e com grande ferocidade os dois grandes bastiões progressistas no hemisfério: a Bolívia e a Venezuela.

Depois de ter fracassado em sua empreitada para tomar o poder no Equador, onde Rafael Correa logrou fazer o seu sucessor, e insuflado pela ascensão dos republicanos à presidência, o Estado Paralelo dos Estados Unidos – que se constitui de fato no verdadeiro governo daquele país – busca por via de um plano concertado de desestabilização que envolve assassinatos programados, desabastecimento de produtos vitais, sabotagens, obstrução permanente de vias de trânsito, ataques a estabelecimentos públicos e a forças de segurança do Estado – muitas vezes com armas sofisticadas e helicópteros – a instauração de um estado de guerra civil na Venezuela. 

Até o momento não foram bem-sucedidos devido à postura de resistência do governo de Nicolas Maduro e o apoio de grande parte da população venezuelana assim como o suporte das autoridades legais da nação, que propõem uma saída constitucional com a realização de eleições para uma nova Assembleia Constituinte.

A nova Câmara, a ser eleita no próximo dia 30 de julho, deverá decidir se a Venezuela prossegue em seu caminho de libertação ou se retorna à condição de quintal dos Estados Unidos, que ostentava antes da ascensão de Hugo Chávez ao poder em 1998.

Foi com o governo de Barack Hussein Obama que os Estados Unidos – depois de derrotados no Afeganistão e no Iraque e temerosos de uma fracasso militar na hipótese de um ataque ao Irã – voltaram a retomar a sua tradicional diplomacia da canhoneira para a América Latina.

Municiados pelas famosas think tanks – ONGs que se dedicam a conceber planos para os Estados Unidos se apoderarem de países com grandes riquezas naturais ou situados em regiões vitais do planeta – os estrategistas do Pentágono e do Departamento de Estado americano retomaram a sua velha política de golpes que nos últimos anos variaram do putsch de Honduras em 2009 contra Manuel Zelaya, o golpe parlamentar no Paraguai que derrubou Fernando Lugo em 2012 até a sofisticada conspiração empresarial, parlamentar e dos meios de comunicação, que contou com decisivo apoio do estamento judiciário do país e depôs sem um motivo justo Dilma Rousseff em 2016, uma presidente que havia sido eleita no final de 2014 com mais de 55 milhões de votos.

Desde maio de 2016, os tímidos avanços sociais impulsionados pelos governos de Lula e Dilma vêm sendo progressivamente desmontados pelo governo que usurpou o poder e que hoje também se encontra mergulhado no mais soturno momento de corrupção já vivido por uma administração pública federal na história brasileira e que em razão disto e de seu compromisso com os setores mais oligárquicos da nossa sociedade não conta com o apoio de mais de 5% da população do país.

Por outro lado, a cumplicidade do Judiciário se torna cada vez mais necessária ao processo de consolidação do golpe na medida em que este poder deve fornecer o manto protetor da impunidade a políticos inescrupulosos como Aécio Neves, Mauricio Macri, Henrique Capriles Radonski, Leopoldo López, verdadeiros gangsters que se gabam de seus crimes em conversas privadas e atuam como capatazes a serviço do pilhagem em curso na América Latina.

Ao mesmo tempo em que protege os criminosos a serviço de Washington, a justiça condena sem provas os opositores deste projeto, como acaba de ocorrer no Brasil com a promulgação da sentença de nove anos e meio atribuída a Luís Inácio da Silva e também no Peru onde o ex-presidente Ollanta Humala e sua mulher foram recolhidos à prisão preventiva sem nenhum juízo formado enquanto seus antecessores Alejandro Toledo e Alan Garcia, submetidos às mesmas acusações, foram preservados de qualquer ação penal.

Curiosamente e de forma sinistra, enquanto a empresa brasileira de engenharia Odebrecht delatava o ex-presidente peruano e sua esposa, aqui no Brasil a OAS e a JBS desempenhavam o mesmo papel na condenação de Lula, político que figura em todas as pesquisas como o candidato favorito para ganhar as eleições presidenciais de 2018.

Por trás de tudo isto está o interesse do capital norte-americano, que deseja se apoderar das conquistas obtidas no Brasil durante os anos da era Lula, com suas políticas de exportação de commodities que fortaleceram muitas empresas nacionais.

Na Venezuela, tudo indica que fracassou mais uma tentativa de golpe, desta vez com um simulado referendo revocatório que não alcançou o número mínimo de votos necessário para a sua efetivação. Enquanto isto, na metrópole Donald Trump – em mais um gesto típico da velha diplomacia da canhoneira – cometeu outra de suas proverbiais gafes diplomáticas ao ameaçar a Venezuela com mais sanções econômicas caso o país insista em promover eleições, marcadas para o próximo dia 30 de julho, destinadas a escolher uma Assembleia Constituinte!

Washington, como todo o império em decadência, começa a se parecer cada vez mais com a Roma dos Césares embora nem por isto deva ser temido em sua enorme capacidade destrutiva, como provam as fotografias aéreas recentemente divulgadas acerca da completa destruição da milenar cidade iraquiana de Mosul.

O futuro dirá se voltaremos de fato a ser o quintal dos Estados Unidos, como nos tempos em que o sargento Fulgencio Batista tomava posse da presidência de Cuba em um porta-aviões norte-americano ancorado no porto de Havana e os marines de Tio Sam faziam xixi na estátua de José Martí, poeta e libertador do país.

 

Sérvulo Siqueira

 

*Título inspirado pela frase de Porfirio Díaz, presidente do México que afirmou: – Pobre Mexico! Tan lejos de Dios y tan cerca de los Estados Unidos. (Pobre do México! Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos.)